Brasília tem cerimônias em que o discurso acontece no microfone. Em outras, basta observar quem sentou ao lado de quem, quem cumprimentou quem — e quem simplesmente seguiu adiante.
A posse de Kassio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, em 12 de maio, entregou um pouco dos dois.
O plenário reuniu ministros do Supremo, integrantes do governo, lideranças do Congresso, nomes da oposição e personagens que estarão no centro das atenções durante o ano eleitoral. Mas, fora da mesa principal, uma das fileiras mais observadas tinha Michelle Bolsonaro.
A ex-primeira-dama apareceu ao lado da governadora do Distrito Federal, Celina Leão, e muito próxima de Yara Lewandowski e Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Para uma noite institucional, o mapa de lugares estava particularmente interessante.
Michelle e Viviane chegaram a se cumprimentar e trocar algumas palavras. Entre elas estava Yara Lewandowski, esposa do ex-ministro Ricardo Lewandowski.
A cena chamou atenção justamente pelo histórico político que cerca os sobrenomes envolvidos. Alexandre de Moraes esteve no centro de decisões judiciais relacionadas a Jair Bolsonaro, mas isso não impediu que o protocolo social funcionasse.
E funcionou novamente quando o próprio Moraes encontrou Michelle.
Os dois se cumprimentaram durante a cerimônia, em uma demonstração pública de civilidade que ganhou repercussão justamente porque, fora daquele salão, seus respectivos ambientes políticos acumulam anos de tensão.
Alta sociedade política tem dessas coisas: adversários podem travar guerras durante o dia e dividir o mesmo salão à noite.
Visualmente, Michelle também escolheu não competir com a solenidade.
O preto predominante, combinado com detalhes brancos, produziu uma imagem clássica e sóbria para um ambiente institucional. Sem extravagância e sem necessidade de transformar a passagem pelo TSE em tapete vermelho.
Mas discrição, em Brasília, não significa invisibilidade.
Fotógrafos acompanharam seus movimentos, conversas ganharam atenção e até cumprimentos rápidos passaram a ser interpretados politicamente.
É o preço — e também a curiosidade — que acompanha personagens públicos em ambientes de poder: até um gesto protocolar pode virar manchete.
Na mesma cerimônia também estava a primeira-dama Janja. Em um salão com tantas diferenças políticas concentradas em poucos metros, seria inevitável que os olhares procurassem encontros, cumprimentos e fotografias.
Mas existe uma regra antiga dos ambientes sociais que continua bastante útil em Brasília: educação não exige intimidade.
Michelle cumprimentou pessoas ligadas a um campo institucional profundamente conflituoso com o bolsonarismo e manteve o protocolo sem transformar cada aproximação em demonstração pública de amizade.
E talvez aí esteja a melhor alfinetada daquela noite: não é preciso colecionar intimidades para demonstrar trânsito social.
Em ambientes onde imagem vale tanto quanto palavra, saber onde permanecer, quando cumprimentar e quando simplesmente seguir adiante também faz parte do jogo.
Nem toda fotografia acrescenta prestígio. Nem toda proximidade precisa ser exibida. E nem toda companhia merece virar performance para as câmeras.
O encontro com Alexandre de Moraes talvez tenha sido o exemplo mais interessante da noite.
Michelle poderia ter transformado a situação em constrangimento público. Moraes também. Nenhum dos dois escolheu esse caminho.
Houve cumprimento e o evento seguiu.
O gesto não apaga divergências, processos ou conflitos políticos. Também não permite concluir que exista aproximação política entre eles. Mostra apenas que protocolo e disputa conseguem ocupar o mesmo ambiente.
E, para uma coluna interessada justamente naquilo que acontece entre poder, imagem e comportamento, esse pequeno momento diz bastante sobre Brasília.
Michelle deixou o Palácio da Alvorada há anos, mas continua despertando atenção de fotógrafos, aliados, adversários e público. Naquela noite, porém, o elemento mais interessante não foi medir sua força política ou antecipar o que as urnas poderão dizer.
Foi observar sua movimentação dentro daquele ambiente.
Entre cumprimentos improváveis, esposas de ministros, autoridades, diferenças políticas e câmeras procurando qualquer gesto fora do roteiro, ela optou pelo protocolo.
E, em uma Brasília cada vez mais acostumada ao espetáculo, talvez o detalhe mais colunável seja justamente este: saber aparecer também significa saber quando não forçar uma cena.