Do desembarque cercado por dúvidas físicas à eliminação diante da Noruega, Mundial encerra ciclo do camisa 10 e obriga Ancelotti a reconstruir uma Seleção que terminou em 11º lugar
Quando a Seleção Brasileira desembarcou para a Copa do Mundo de 2026, boa parte dos holofotes apontava novamente para Neymar. Havia dúvidas sobre sua condição física, expectativa sobre quanto ainda poderia oferecer ao Brasil e uma pergunta que acompanhava todo o grupo: depois de um ciclo turbulento, Carlo Ancelotti conseguiria devolver à camisa amarela o peso competitivo perdido nos últimos Mundiais?
Meses depois, a resposta é dura. O Brasil deixou a Copa nas oitavas de final, derrotado por 2 a 1 pela Noruega, terminou o torneio em 11º lugar e registrou sua pior campanha em um Mundial desde 1990.
E aquele desembarque que colocava Neymar no centro de praticamente todas as discussões acabou se transformando no início de sua despedida da Seleção.
O primeiro alerta estava no corpo
As dúvidas que cercavam Neymar antes da estreia não eram apenas especulação. O atacante chegou ao Mundial depois de sofrer uma lesão na panturrilha em maio e precisou seguir um planejamento específico durante a competição.
O problema físico interferiu diretamente em sua Copa. Neymar não viajou com a delegação para enfrentar o Haiti e permaneceu em Nova Jersey realizando trabalhos de recuperação. A comissão técnica adotou cautela para tentar colocá-lo em condições de contribuir na sequência do torneio.
O retorno finalmente aconteceu contra a Escócia. Ao entrar durante a vitória brasileira por 3 a 0, Neymar voltou a defender a Seleção depois de quase mil dias afastado da camisa amarela.
Era uma volta carregada de simbolismo. Mas também mostrava uma realidade que acompanharia o camisa 10 durante o Mundial: pela primeira vez em muito tempo, o Brasil não poderia estruturar toda a sua campanha esperando que Neymar resolvesse os jogos.

O Brasil tentou aprender a jogar sem Neymar
Durante o torneio, Ancelotti administrou uma situação pouco comum na história recente da Seleção. Neymar deixou de ser presença automática entre os titulares e passou a ser utilizado de acordo com sua condição física e com as necessidades de cada partida.
Contra o Japão, por exemplo, o camisa 10 permaneceu no banco. Ancelotti explicou posteriormente que planejava utilizá-lo caso a partida seguisse para a prorrogação. O Brasil conseguiu a virada antes disso e Neymar não entrou.
A imagem era simbólica. Durante anos, qualquer discussão sobre a Seleção começava pelo lugar ocupado por Neymar. Na Copa de 2026, o debate passou gradualmente a ser sobre como encaixá-lo em um time que precisava funcionar independentemente de sua presença.
Vinícius Júnior, Raphinha, Bruno Guimarães, Matheus Cunha e outros nomes receberam responsabilidades maiores. Gabriel Martinelli também ganhou espaço e marcou o gol que classificou o Brasil diante do Japão.
Então veio a Noruega
Nas oitavas de final, a Seleção encontrou a partida que transformaria toda a avaliação sobre o Mundial. A Noruega venceu por 2 a 1 e encerrou precocemente a campanha brasileira.
Erling Haaland marcou os dois gols noruegueses. Neymar entrou no segundo tempo e ainda diminuiu de pênalti, mas não conseguiu mudar o destino da partida.
O resultado produziu números incômodos para uma seleção pentacampeã. O Brasil terminou em 11º lugar, igualando sua segunda pior colocação histórica em Copas, e voltou a cair nas oitavas pela primeira vez desde 1990.
A eliminação ampliou ainda outro problema que atravessa diferentes gerações. Desde o título mundial de 2002, o Brasil foi eliminado seis vezes consecutivas por seleções europeias em confrontos de mata-mata de Copa: França, Holanda, Alemanha, Bélgica, Croácia e, agora, Noruega.
Neymar fecha uma era
Depois do apito final, a eliminação ganhou uma dimensão ainda maior. Neymar chorou no gramado e, posteriormente, também no vestiário. Diante dos companheiros, agradeceu pelo período de convivência e indicou que aquela havia sido sua despedida da Seleção.
Era o encerramento de uma trajetória iniciada em 2010 e marcada por enorme expectativa. Neymar atravessou quatro Copas, tornou-se protagonista de sua geração e carregou durante anos a condição de principal referência técnica do futebol brasileiro.
Mas seu ciclo também coincidiu com um período em que o Brasil nunca voltou a uma final de Copa do Mundo. A despedida, portanto, reúne duas verdades que podem coexistir: a dimensão individual de um dos jogadores mais importantes da história recente da Seleção e a frustração coletiva de uma geração que não conseguiu reconduzir o país ao título mundial.
Ancelotti também assumiu sua parcela
A eliminação não foi atribuída apenas aos jogadores. Semanas depois da Copa, Carlo Ancelotti reconheceu erros em suas decisões contra a Noruega, incluindo as substituições feitas durante a partida e a perda de controle do jogo.
A autocrítica é relevante porque a CBF decidiu não reiniciar novamente o projeto. A entidade confirmou a continuidade do treinador italiano até a Copa do Mundo de 2030.
Depois de anos marcados por mudanças de comando e instabilidade, a aposta agora é oferecer a Ancelotti um ciclo completo para reconstruir a Seleção.
A reconstrução começou pelos veteranos
A primeira ruptura ficou clara ainda em julho. Ancelotti confirmou que Neymar, Casemiro e Danilo não fariam parte do novo projeto da Seleção e declarou a intenção de abrir espaço para uma geração mais jovem.
A decisão encerra três ciclos importantes ao mesmo tempo e muda a hierarquia do vestiário. O Brasil que caminha para a Copa América de 2028 e, posteriormente, para o Mundial de 2030 terá de encontrar novas referências técnicas e novas lideranças.
Isso aumenta a responsabilidade de jogadores que já chegaram a 2026 cercados de expectativa. Vinícius Júnior entra no novo ciclo em idade de protagonismo. Bruno Guimarães ganha peso no meio-campo. Outros nomes precisarão emergir para que a renovação não seja apenas uma troca de gerações, mas uma mudança efetiva de desempenho.
As fotos nunca foram o verdadeiro problema
Vista meses depois, uma das discussões que antecederam o Mundial também ganha outra perspectiva. Fotos, redes sociais, festas de recepção e conteúdo produzido durante a viagem foram apontados por críticos como sinais de possível dispersão.
Não existe base para estabelecer uma relação causal entre esse ambiente e a eliminação brasileira. Seleções modernas convivem naturalmente com patrocinadores, comunicação digital, imprensa e exposição comercial.
O que a Copa mostrou é que os problemas decisivos estavam dentro do campo. O Brasil não conseguiu atravessar as oitavas, sofreu diante de um adversário europeu e terminou o Mundial muito antes do que sua história e suas ambições projetavam.
Na derrota para a Noruega, a Seleção terminou com apenas 35% de posse de bola, seu menor índice em uma partida de Copa desde o início da série estatística da Opta, em 1966.
Agora o Brasil precisa existir depois de Neymar
Talvez essa seja a principal consequência deixada por 2026. Durante mais de uma década, a Seleção discutiu como jogar com Neymar, como protegê-lo, como potencializá-lo e quem deveria acompanhá-lo.
Essa pergunta acabou.
O desafio de Ancelotti agora é mais amplo: construir um time que não dependa da expectativa de que um grande personagem resolva aquilo que o coletivo não consegue produzir.
A Copa de 2026 começou para o Brasil sob os holofotes de Neymar e terminou diante de uma imagem muito diferente: o camisa 10 chorando, uma eliminação precoce e a constatação de que mais um ciclo havia chegado ao limite.
O Brasil continuará sendo pentacampeão. Continuará produzindo alguns dos jogadores mais valiosos do planeta. Mas a camisa não vence sozinha — e 2026 deixou isso novamente exposto. A reconstrução para 2030 começa justamente onde a última Copa terminou: sem Neymar e com muito mais perguntas do que certezas.