Nasceu no Brasil, fez história por outra seleção na Copa

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Por olhonamídia
Esportes | competições & bastidores
3 de junho de 2026 • atualizado em 25 de setembro de 2026

Maurício marcou pelo Paraguai e participou da histórica queda da Alemanha; Mundial teve brasileiros vestindo também as camisas de Portugal e Catar e expôs um futebol cada vez menos preso ao local de nascimento

Antes de a bola rolar na Copa do Mundo de 2026, a presença de jogadores nascidos no Brasil defendendo outras seleções parecia apenas uma das curiosidades de um Mundial ampliado para 48 países. Depois do torneio, a história ganhou outro tamanho.

Um desses brasileiros marcou gol, participou de uma das maiores surpresas da competição e ajudou a eliminar uma tetracampeã mundial. Maurício, nascido em São Paulo e jogador do Palmeiras, vestiu a camisa do Paraguai e transformou uma discussão sobre dupla nacionalidade em uma história efetivamente escrita dentro de campo.

Além dele, Matheus Nunes representou Portugal e Lucas Mendes defendeu o Catar. Três jogadores nascidos no Brasil chegaram à Copa de 2026 carregando outras bandeiras e trajetórias completamente diferentes.

O Brasil estava entre apenas oito das 48 seleções da Copa sem jogadores nascidos em outros países. Em sentido contrário, três brasileiros disputaram o Mundial defendendo Paraguai, Portugal e Catar.

Maurício transformou a curiosidade em notícia

Entre os três, ninguém produziu uma história tão marcante quanto Maurício.

O meia do Palmeiras nasceu no Brasil, passou pelas categorias de base da Seleção Brasileira e se naturalizou paraguaio em fevereiro de 2026. A escolha não surgiu de uma relação artificial com o país vizinho: sua avó paterna era paraguaia e seu pai, embora brasileiro, passou parte da infância e da adolescência no Paraguai.

Dentro do Palmeiras, o zagueiro e capitão paraguaio Gustavo Gómez também participou do processo, auxiliando o companheiro durante a naturalização.

Meses depois, Maurício estava na maior competição do planeta vestindo a camisa albirroja.

Um gol brasileiro com a camisa do Paraguai

A estreia paraguaia contra os Estados Unidos terminou em derrota por 4 a 1, mas produziu um momento particular para o jogador do Palmeiras. Maurício saiu do banco no intervalo e marcou o único gol do Paraguai na partida.

O lance colocou o brasileiro naturalizado diretamente entre os personagens paraguaios daquele Mundial e antecipou algo ainda maior que aconteceria na fase eliminatória.

Matheus Nunes, Maurício e Lucas Mendes, jogadores nascidos no Brasil que disputaram a Copa de 2026 por outras seleções
Matheus Nunes, Maurício e Lucas Mendes representam três trajetórias distintas de jogadores nascidos no Brasil que disputaram a Copa do Mundo de 2026 por Portugal, Paraguai e Catar. A presença brasileira em outras seleções tornou-se um dos retratos da internacionalização do futebol. Imagem: olhonamídia/ilustração.

E então o Paraguai derrubou a Alemanha

O grande capítulo da campanha veio contra a Alemanha na primeira fase eliminatória. Paraguaios e alemães empataram por 1 a 1 depois de 120 minutos e levaram a classificação para os pênaltis.

Era um cenário de enorme pressão. A Alemanha nunca havia perdido uma disputa de pênaltis em uma Copa do Mundo.

Maurício foi chamado para uma das cobranças paraguaias e converteu. Gustavo Gómez, seu companheiro de Palmeiras, também marcou. Depois de uma disputa dramática, o Paraguai venceu por 4 a 3 e eliminou a tetracampeã mundial.

Para Maurício, aquela cobrança sintetizou uma transformação incomum: um jogador que havia passado pelas categorias de base brasileiras ajudava outra seleção sul-americana a produzir uma das grandes histórias da Copa.

Maurício saiu das categorias de base do Brasil para marcar pelo Paraguai em uma Copa e converter um dos pênaltis da histórica eliminação da Alemanha.

Matheus Nunes percorreu outro caminho

A história de Matheus Nunes é diferente. Nascido em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, ele se mudou para Portugal aos 12 anos e desenvolveu praticamente toda a sua formação esportiva no país europeu.

Passou por Estoril e Sporting, chegou à Premier League e acabou contratado pelo Manchester City. Em 2021, chegou a ser convocado por Tite para a Seleção Brasileira, mas não se apresentou. Pouco depois, optou por representar Portugal.

Em 2026, disputou sua segunda Copa pelos portugueses. Sua participação dentro de campo foi pequena, mas sua presença no elenco reforçou um fenômeno cada vez mais comum: o país de nascimento não determina sozinho qual seleção um jogador representará ao longo da carreira.

Do Paraná ao Catar

Lucas Mendes representa uma terceira rota.

Nascido em Curitiba e revelado pelo Coritiba, o defensor deixou o Brasil em 2012 para jogar no Olympique de Marselha. Dois anos depois, transferiu-se para o futebol do Catar e construiu praticamente toda a fase seguinte da carreira no país.

A longa permanência abriu caminho para sua naturalização e, posteriormente, para a seleção catari. Na Copa de 2026, integrou o elenco do Catar e teve participação reduzida em campo.

Curiosamente, sua história quase tomou outro rumo muitos anos antes. Em 2012, Lucas apareceu entre os pré-convocados de Mano Menezes para os Jogos Olímpicos de Londres, mas não chegou a construir uma trajetória pela Seleção principal.

40 seleções tinham jogadores nascidos em outros países

Os brasileiros estavam longe de constituir uma exceção. Das 48 seleções presentes na Copa de 2026, 40 tinham pelo menos um atleta nascido fora do território que representavam.

O Brasil estava no grupo minoritário de apenas oito seleções sem jogadores nascidos em outro país. Alemanha, Argentina, Espanha, França, Inglaterra e Uruguai, todas campeãs mundiais, apresentaram ao menos um atleta com local de nascimento diferente da seleção defendida.

Algumas situações são resultado de migração familiar. Outras envolvem dupla cidadania, ascendência, formação esportiva em outro país ou longos períodos de residência. Há ainda jogadores que nasceram no exterior porque seus pais estavam temporariamente trabalhando fora de seu país de origem.

Por isso, colocar todas essas histórias simplesmente sob o rótulo de “naturalizados” pode esconder diferenças importantes.

A identidade de uma seleção ficou mais complexa

A transformação acompanha o próprio movimento do futebol. Clubes recrutam atletas cada vez mais jovens em diferentes continentes. Famílias migram. Jogadores constroem a maior parte da vida em países diferentes daquele registrado na certidão de nascimento. Filhos de atletas nascem durante passagens profissionais pelo exterior.

Quando chega o momento de representar uma seleção, nacionalidade, vínculos familiares, residência e histórico esportivo passam a integrar uma decisão que nem sempre cabe na ideia tradicional de que um atleta obrigatoriamente defenderá o país onde nasceu.

A FIFA estabelece critérios específicos de elegibilidade e de mudança de associação justamente porque essas situações se tornaram parte permanente do futebol internacional.

A Copa virou retrato de um mundo em movimento

O Mundial de 2026 reuniu jogadores de 449 clubes espalhados por 71 países. É difícil encontrar uma demonstração mais clara de como o futebol de seleções depende hoje de uma rede global de formação, migração e circulação de talentos.

Até o Campeonato Brasileiro refletiu essa transformação. A Série A estabeleceu recorde com 32 jogadores na Copa, distribuídos por sete seleções. Além do Brasil, atletas empregados por clubes brasileiros defenderam Argentina, Uruguai, Paraguai, Equador, Colômbia e Holanda.

O movimento acontece, portanto, nos dois sentidos. Brasileiros constroem identidades esportivas fora do país enquanto estrangeiros encontram no futebol brasileiro uma plataforma para chegar às próprias seleções.

Maurício acabou virando o símbolo dessa Copa

Entre números, regras e discussões sobre nacionalidade, o futebol ofereceu sua própria síntese.

Maurício nasceu no Brasil, passou pelas seleções brasileiras de base, construiu vínculo familiar com o Paraguai, naturalizou-se, chegou ao Mundial, marcou um gol e ajudou a eliminar a Alemanha nos pênaltis.

Não deixou de ser brasileiro por isso. Tampouco sua presença tornou a camisa paraguaia menos legítima. Sua trajetória simplesmente mostra como identidade pessoal, nacionalidade jurídica e representação esportiva podem se cruzar de maneiras muito mais complexas no futebol contemporâneo.

A Copa de 2026 terminou. Mas deixou uma imagem precisa do esporte deste século: jogadores podem nascer em um país, crescer em outro, trabalhar em um terceiro e disputar o maior torneio do planeta defendendo uma bandeira construída ao longo da própria história.

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