Seleção encerrou série histórica de 39 vitórias da Itália, repetiu o feito na semifinal e chegou à quinta decisão da Liga das Nações, mas a Turquia adiou novamente o sonho do ouro
Na manhã de 7 de junho, Brasil e Itália entraram em quadra em Brasília para um confronto que deveria responder até onde aquela Seleção Brasileira poderia chegar na Liga das Nações. Três meses depois, a resposta é muito mais interessante do que qualquer projeção feita antes do jogo: o Brasil derrubou a maior potência daquele momento, voltou a derrotá-la quando mais importava e chegou à final da VNL. Mas o título que persegue desde a criação do torneio escapou outra vez.
A trajetória começou com uma vitória que mudou a temperatura da temporada. Diante de mais de 10 mil torcedores no Ginásio Nilson Nelson, o Brasil derrotou a Itália por 3 sets a 2, com parciais de 25/15, 25/22, 22/25, 24/26 e 15/12.
O placar, sozinho, já seria relevante. O que existia por trás dele transformou a partida em algo maior: a Itália chegou a Brasília acumulando 39 vitórias consecutivas e sem perder havia mais de dois anos. Campeã olímpica e referência mundial, atravessava uma sequência que parecia praticamente intocável.
O teste virou afirmação
A vitória ganhou ainda mais peso porque não foi construída sem sofrimento. O Brasil abriu 2 sets a 0, viu as italianas reagirem e empatarem a partida e precisou enfrentar um tie-break carregado de pressão para impedir uma virada.
Foi exatamente nesse momento que a equipe comandada por José Roberto Guimarães mostrou uma característica que voltaria a aparecer durante a competição: capacidade de permanecer competitiva quando o jogo entrava em território de alta tensão.
A Seleção encerrou aquela primeira semana da VNL com quatro vitórias em quatro partidas. O que inicialmente parecia um começo promissor começava a assumir outra dimensão. A pergunta já não era mais se o Brasil conseguiria competir contra as principais seleções. Passava a ser se conseguiria transformar essa competitividade no título que nunca conquistou.
A Itália apareceu novamente no caminho
Quase sete semanas depois, o roteiro colocou as duas seleções frente a frente novamente. Desta vez não havia margem para administrar campanha ou pensar na rodada seguinte. Brasil e Itália disputavam em Macau, na China, uma vaga na final da Liga das Nações.
E o confronto ganhou um peso adicional. A Itália havia vencido os últimos duelos eliminatórios importantes entre as equipes, incluindo a final da VNL de 2025 e a semifinal do Campeonato Mundial daquele mesmo ano. Era uma adversária que, além da qualidade técnica, carregava um histórico recente desconfortável para as brasileiras.
O Brasil voltou a responder.
Em outra batalha de cinco sets, a Seleção venceu por 3 a 2, com parciais de 21/25, 25/21, 26/24, 21/25 e 15/12. Ana Cristina assumiu protagonismo ofensivo e terminou a partida com 23 pontos.
Se a vitória de Brasília havia provado que o Brasil podia derrotar a Itália, o triunfo de Macau mostrou que conseguia repetir o feito sob pressão eliminatória.
Então apareceu a Turquia
O roteiro parecia preparado para encerrar uma espera histórica. Desde que a Liga das Nações substituiu o antigo Grand Prix, em 2018, o Brasil havia chegado perto diversas vezes, mas nunca levantado o troféu.
Depois de eliminar justamente a Itália, o país entrou na decisão contra a Turquia com a possibilidade de finalmente quebrar esse tabu.
Não aconteceu.
Na final disputada em Macau, a Seleção começou vencendo, mas sofreu a virada e perdeu por 3 sets a 1, com parciais de 23/25, 25/23, 26/24 e 25/21. Melissa Vargas foi decisiva para as turcas em uma partida na qual pequenos detalhes separaram a possibilidade do ouro de mais uma medalha de prata.
Cinco finais. Cinco pratas.
É aqui que a campanha brasileira ganha sua contradição mais interessante. O Brasil chegou à quinta final de sua história na Liga das Nações e novamente terminou na segunda posição.
As pratas de 2019, 2021, 2022, 2025 e agora 2026 colocam a Seleção entre as equipes mais constantes da competição. Ao mesmo tempo, transformam o título da VNL em uma ausência cada vez mais evidente na trajetória recente do voleibol feminino brasileiro.
Não se trata de uma equipe distante da elite. É justamente o contrário. O Brasil chega repetidamente às fases decisivas, elimina adversárias de primeiro nível e permanece competitivo contra as maiores potências. O passo que falta é converter essa regularidade em título.
A geração mostrou que pode enfrentar qualquer potência
A ausência do ouro não apaga o que a campanha revelou. A Seleção apresentou alternativas, fortaleceu atletas que assumem cada vez mais protagonismo e atravessou a competição demonstrando capacidade de competir em jogos longos e de pressão elevada.
Ana Cristina foi um dos símbolos dessa evolução. Júlia Bergmann ampliou sua importância dentro do sistema brasileiro. Júlia Kudiess e Diana consolidaram presença no centro da rede, enquanto José Roberto Guimarães continuou administrando experiência, renovação e diferentes possibilidades de formação.
O resultado contra a Itália também deixou uma mensagem esportiva importante. Nenhuma potência parecia inalcançável. O Brasil derrotou duas vezes, em momentos distintos, uma seleção que chegou à temporada carregando títulos, ranking e uma invencibilidade histórica.
O tamanho do Brasil ficou mais claro
A pergunta feita antes daquele primeiro Brasil x Itália, em junho, era sobre o verdadeiro tamanho da Seleção. A temporada ofereceu uma resposta mais complexa do que simplesmente olhar para uma medalha.
O Brasil mostrou tamanho para derrubar a Itália depois de 39 vitórias consecutivas. Mostrou tamanho para encontrá-la novamente em uma semifinal e vencer outra batalha de cinco sets. Mostrou tamanho para chegar a mais uma decisão internacional.
Mas a derrota para a Turquia mostrou também a fronteira que continua separando competitividade de conquista. O Brasil está entre as grandes forças do voleibol feminino mundial; na Liga das Nações, porém, ainda procura transformar presença constante nas decisões em ouro.
Talvez seja justamente isso que torne aquela tarde de Brasília tão simbólica. O duelo que deveria medir o tamanho da Seleção acabou sendo o primeiro grande sinal de uma campanha que levaria o Brasil novamente à final. A Itália caiu duas vezes. A barreira do título, não.