Movimentação que ganhou força em maio antecipou o confronto eleitoral entre o ex-prefeito de Itabaiana e o governador; quatro meses depois, os dois chegam à reta decisiva em uma disputa muito mais ampla
Meses antes do início oficial da campanha, a corrida pelo Governo de Sergipe já começava a ganhar as ruas. De um lado, Valmir de Francisquinho (Republicanos) intensificava a circulação pelo interior e apostava no contato direto com o eleitor. Do outro, o governador Fábio Mitidieri (PSD) preservava uma exposição fortemente ligada à administração estadual e à articulação com prefeitos e lideranças políticas.
A diferença de estratégia começava a desenhar uma disputa que, naquele momento, ainda estava em formação: Valmir buscava transformar presença territorial em força eleitoral; Mitidieri tentava combinar a visibilidade do governo com uma ampla rede de alianças municipais.
Não se tratava apenas de estilos diferentes. A movimentação antecipava uma das principais batalhas políticas de Sergipe em 2026.
Valmir aposta no corpo a corpo
Ex-prefeito de Itabaiana e personagem central da oposição estadual, Valmir passou a ampliar a presença em municípios sergipanos, participando de encontros, feiras, eventos e articulações políticas.
A estratégia tinha uma lógica evidente: ocupar território antes que a campanha formal tomasse conta das ruas.
Para um político cuja trajetória está fortemente associada a Itabaiana e ao Agreste, ampliar a circulação por outras regiões era também uma forma de tentar transformar uma liderança de origem municipal em candidatura com alcance estadual.
O interior aparecia, portanto, não apenas como cenário de agenda, mas como uma das peças centrais da construção eleitoral.
Mitidieri aposta no peso das alianças
Enquanto Valmir buscava exposição no contato direto com o eleitor, Mitidieri trabalhava outro ativo político: a relação com prefeitos e lideranças municipais.
Naquele período, o governador reunia uma ampla base de gestores e aliados, ao mesmo tempo em que continuava submetido às responsabilidades administrativas do cargo.
Essa condição produz uma diferença importante entre os dois principais adversários. Valmir tinha liberdade para concentrar sua movimentação na construção política da candidatura. Mitidieri precisava disputar espaço eleitoral sem abandonar a agenda institucional de governador.
Por isso, comparar apenas o número de visitas, caminhadas ou aparições públicas poderia produzir uma leitura incompleta. Presença popular e capilaridade política são formas diferentes de disputar influência.
O primeiro alerta veio das pesquisas
A movimentação territorial de Valmir acontecia em um momento em que pesquisas começavam a indicar uma corrida competitiva.
No levantamento Real Time Big Data realizado entre 23 e 25 de maio, Fábio Mitidieri apareceu com 41% das intenções de voto no cenário estimulado, enquanto Valmir registrou 38%.
Como a margem de erro informada era de dois pontos percentuais, os dois estavam tecnicamente empatados. Ricardo Marques aparecia com 5%, Emanoel Cacho com 2% e Dr. Helton Monteiro com 1%.
O levantamento ouviu 1.600 eleitores e foi registrado na Justiça Eleitoral sob o número SE-06384/2026.
Em eventual segundo turno entre Mitidieri e Valmir, o instituto registrou 44% para o governador e 41% para o ex-prefeito de Itabaiana, novamente dentro de um cenário de empate técnico.
Os números não permitiam declarar vencedor antecipado. Mas deixavam um recado político claro: a disputa estava aberta.
Dois caminhos para chegar ao mesmo eleitor
A diferença entre as estratégias também alimentava interpretações dentro do próprio ambiente político.
Aliados de Valmir apresentavam sua circulação por municípios como demonstração de proximidade com a população. Já a base governista apostava na capacidade de Mitidieri de reunir prefeitos, lideranças e estruturas partidárias espalhadas pelo estado.
É preciso separar, porém, narrativa de campanha de constatação jornalística.
Estar cercado de prefeitos não garante votos automaticamente. Da mesma forma, reunir apoiadores em agendas públicas não demonstra sozinho a preferência majoritária do eleitorado.
A conversão dessas estratégias em votos só poderia ser medida ao longo da campanha e, definitivamente, nas urnas.
O interior se transforma em campo de batalha
O movimento observado em maio não desapareceu com o avanço do calendário eleitoral.
Pelo contrário.
À medida que a eleição se aproximou, municípios do interior passaram a receber carreatas, visitas, reuniões políticas e atos das diferentes candidaturas.
Valmir manteve essa característica de campanha. Em setembro, já na reta final, sua agenda continuava incluindo feiras livres e longos percursos pelo estado, passando por municípios como Poço Verde, Nossa Senhora do Socorro, Umbaúba, Cristinápolis, Tomar do Geru, Itabaianinha e Tobias Barreto.
A estratégia iniciada meses antes havia se transformado em uma das marcas de sua campanha.
Mitidieri também deixou o terreno apenas institucional
O cenário, entretanto, mudou em relação ao observado no primeiro semestre.
Com a campanha oficialmente nas ruas, Mitidieri deixou de aparecer somente sob a lógica institucional do governo e passou a atuar também como candidato à reeleição.
Essa mudança é natural dentro do calendário eleitoral, mas aumenta a necessidade de distinguir duas funções que agora convivem na mesma pessoa: Fábio Mitidieri governador e Fábio Mitidieri candidato.
Atos administrativos legítimos não se tornam propaganda eleitoral simplesmente porque o chefe do Executivo disputa a reeleição. Por outro lado, eventual utilização da estrutura pública com finalidade eleitoral está sujeita à fiscalização e às regras da Justiça Eleitoral.
Essa fronteira passou a ocupar espaço cada vez maior no debate político sergipano.
Maio antecipou uma guerra que ficaria muito maior
Vista quatro meses depois, aquela movimentação de maio ajuda a compreender como a eleição foi construída.
Valmir buscava ocupar o território. Mitidieri consolidava alianças e administrava a exposição institucional. Ricardo Marques ainda tentava ampliar espaço para romper a concentração da disputa entre os dois.
Desde então, a corrida ganhou novos ingredientes: campanha oficial, pesquisas divergentes, propaganda eleitoral, representações na Justiça, direito de resposta, denúncias e uma disputa cada vez mais intensa nas redes sociais.
A eleição que começava a aparecer nas estradas e municípios sergipanos havia se transformado em uma batalha muito mais complexa pelo Governo do Estado.
esta reportagem foi originalmente publicada em maio, quando a movimentação eleitoral ainda ocorria antes da campanha oficial. O texto foi revisado para incorporar a evolução do cenário e preservar o contexto histórico daquele momento. O Olho na Mídia publicou uma reportagem especial separada sobre a atual disputa pelo Governo de Sergipe, incluindo pesquisas, propaganda eleitoral, denúncias e decisões da Justiça.