R$ 427 milhões. Doze processos. R$ 8,5 bilhões em jogo. Um desembargador, sua mulher advogada, referências a um ministro do Supremo Tribunal Federal e um banqueiro cujo celular se transformou numa espécie de mapa das relações de poder construídas em torno do Banco Master.
O novo capítulo do caso Daniel Vorcaro já não permite olhar apenas para o tamanho do rombo financeiro. A pergunta que começa a atravessar Brasília é outra: como o banqueiro conseguiu construir uma rede de acesso que alcançava escritórios milionários, magistrados, autoridades, hotéis, eventos e algumas das instituições mais poderosas da República?
As mensagens conhecidas até agora não provam, por si sós, compra de decisões, corrupção de magistrados ou pagamento ilícito a ministros. Esse limite é fundamental. Mas também não podem ser tratadas como simples conversas privadas quando aparecem ao lado de contratos de centenas de milhões de reais e interesses econômicos bilionários.
Quando dinheiro, acesso e decisões públicas começam a ocupar o mesmo ambiente, proximidade deixa de ser apenas curiosidade e passa a exigir explicações.
O documento encontrado no material apreendido pela Polícia Federal prevê a contratação pelo Banco Master do escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, do qual faz parte a advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
O contrato estabelecia honorários de êxito equivalentes a 5% líquidos dos valores efetivamente recebidos pelo banco em 12 processos relacionados a precatórios.
Se o Master obtivesse os aproximadamente R$ 8,5 bilhões envolvidos nas causas, os honorários poderiam alcançar cerca de R$ 427 milhões.
É uma cifra extraordinária mesmo para o universo da advocacia empresarial de grande porte. Mas o valor, isoladamente, não prova qualquer ilegalidade. Contratos de êxito são admitidos na advocacia.
O que torna este contrato especialmente relevante é o ambiente revelado pelas mensagens encontradas no celular de Vorcaro.
Nas conversas divulgadas pela imprensa, auxiliares de Vorcaro utilizavam a expressão “Turma do KN” ao tratar de Newton Ramos e Camilla Ramos. As iniciais são apresentadas nas reportagens como referência ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal.
A expressão, por si só, não demonstra que o ministro integrasse qualquer grupo destinado a favorecer o Banco Master. Nunes Marques afirma que nunca autorizou terceiros a falar em seu nome e nega ter mantido tratativas irregulares com Vorcaro.
Mas as mensagens acrescentam elementos que precisam ser esclarecidos.
Em uma delas, um auxiliar de Vorcaro registra: “Fasano Itaim essa sexta a sábado para KN”. Em outra, uma assessora reproduz mensagem atribuída ao desembargador Newton Ramos segundo a qual Nunes Marques teria pedido ajuda para conseguir uma tarifa promocional no hotel Fasano.
Segundo as reportagens que tiveram acesso ao material, Vorcaro respondeu autorizando que a hospedagem fosse colocada em sua conta.
Outras conversas mencionam reservas e inclusão de nomes em camarotes atribuídas à chamada “Turma do KN”.
Nunes Marques nega ter pedido qualquer coisa a Daniel Vorcaro, nega ter trocado mensagens com o banqueiro e afirma que jamais autorizou terceiros a falar em seu nome.
O ponto mais sensível está justamente onde relações pessoais, advocacia e decisões judiciais se aproximam.
Os processos envolvidos no contrato tratavam de indenizações relacionadas ao antigo controle de preços exercido pelo Instituto do Açúcar e do Álcool. O Banco Master aparecia como credor ou cessionário de créditos.
Em julgamento relacionado à controvérsia, Nunes Marques, Dias Toffoli e Edson Fachin votaram pelo reconhecimento do débito, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos.
Isso não significa que os ministros tenham decidido em benefício pessoal de Vorcaro nem demonstra relação entre o contrato de advocacia e os votos.
Mas quando um escritório ligado a personagens chamados nas mensagens de “Turma do KN” tinha honorários potenciais de centenas de milhões vinculados ao êxito de causas bilionárias, transparência deixa de ser uma opção institucional e passa a ser uma exigência.
Políticos, empresários, banqueiros, advogados e magistrados convivem em ambientes institucionais e sociais. Relações pessoais não são crimes.
O problema começa quando surge uma pergunta objetiva: houve benefício econômico ou institucional em troca de acesso, influência ou decisão?
Até agora, não há prova pública suficiente para responder afirmativamente a essa pergunta em relação a Nunes Marques.
Mas há elementos suficientes para justificar investigação e explicações.
Quem pagou hospedagens?
Quem pediu os benefícios?
Por que intermediários utilizavam o nome de um ministro?
Quem eram exatamente os integrantes da chamada “Turma do KN”?
Que serviços justificariam honorários potenciais de R$ 427 milhões?
E houve alguma relação entre essas aproximações e processos de interesse econômico do Master?
Essas respostas não podem ser produzidas por especulação. Precisam sair de documentos, registros bancários, depoimentos e do cruzamento das mensagens com decisões e pagamentos.
Um novo elemento surgiu nesta terça-feira.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Camilla Ramos tem visitado Daniel Vorcaro com frequência na prisão, apesar de não integrar sua defesa criminal.
A situação teria provocado questionamentos entre outros advogados autorizados a encontrar o ex-banqueiro.
A explicação apresentada pela defesa da advogada é que as visitas servem para atualizar Vorcaro sobre ações bilionárias movidas pelo Banco Master contra a União.
A presença de Camilla na prisão não comprova irregularidade. Mas acrescenta uma informação relevante: a relação profissional não desapareceu com o colapso do Master nem com a prisão de Vorcaro.
O material extraído do celular de Vorcaro deixou de produzir apenas notícias sobre o banqueiro. Ele passou a provocar uma disputa dentro do próprio Supremo sobre como as informações devem ser tratadas.
Em 15 de setembro, o plenário discutiu se duas petições relacionadas ao caso Master deveriam tramitar conjuntamente.
Uma delas surgiu de relatório da Polícia Federal encaminhado por André Mendonça e relacionado a supostos diálogos envolvendo Alexandre de Moraes. A outra envolve questionamentos sobre a própria condução do material.
Nunes Marques declarou-se impedido de participar daquele julgamento, alegando preocupação com possíveis reflexos eleitorais em razão de ocupar a presidência do Tribunal Superior Eleitoral. Dias Toffoli declarou suspeição.
Durante a sessão, Gilmar Mendes defendeu que fossem identificados nos autos os magistrados sobre os quais existissem indícios de recebimento indevido, para que apresentassem suas versões e para que a Procuradoria-Geral da República também se manifestasse.
O mérito não chegou a ser julgado. Flávio Dino pediu vista e suspendeu a discussão.
O caso Master, portanto, produz uma situação institucional incomum: o Supremo precisa decidir como investigar informações que alcançam o próprio ambiente da Corte.
A cada novo conjunto de mensagens, surge um personagem, uma relação ou um interesse diferente.
O material atribuído a Vorcaro já produziu reportagens envolvendo integrantes do Judiciário, agentes políticos, empresários, advogados e autoridades responsáveis por estruturas de fiscalização e regulação.
Isso não permite colocar todos no mesmo nível nem transformar cada nome encontrado no telefone do banqueiro em suspeito.
Mas revela algo politicamente relevante: Vorcaro possuía uma capacidade incomum de circular entre centros de poder.
E é justamente essa rede que precisa ser desmontada peça por peça para separar três coisas completamente diferentes: relações legítimas, conflitos de interesse e eventuais crimes.
A pergunta permanece sem uma resposta simples.
O Master captou grandes volumes de recursos no mercado financeiro, operou carteiras de crédito, fundos e outros ativos e manteve negócios bilionários com diferentes instituições.
O colapso posterior revelou uma dimensão muito maior do que a imagem de um banqueiro distribuindo favores entre conhecidos.
Há operações financeiras, recursos de investidores, negócios entre bancos, precatórios, contratos de advocacia e diferentes fluxos sob investigação.
Por isso, descobrir a origem e o destino do dinheiro é tão importante quanto descobrir quem estava na agenda ou no telefone de Vorcaro.
Influência deixa rastros sociais. Dinheiro deixa rastros contábeis.
É no encontro desses dois caminhos que as investigações poderão responder o que hoje permanece como suspeita e questionamento.
É a pergunta mais explosiva — e também aquela que exige maior responsabilidade.
Até o momento, não existe base pública suficiente para afirmar que ministros ou magistrados citados nas mensagens tenham sido “comprados” por Daniel Vorcaro.
Isso precisa ser dito com clareza.
Mas a ausência de prova pública de corrupção não elimina o dever de investigar pagamentos, presentes, viagens, hospedagens, contratos, intermediações e eventuais conflitos de interesse.
Também não autoriza instituições a tratar cada revelação isoladamente até que o conjunto desapareça em meio à próxima notícia.
Se houve apenas relações legítimas, documentos poderão demonstrá-lo.
Se houve abuso de acesso, conflito ético ou favorecimento, isso também precisa aparecer.
E se houver crime, pouco deveria importar o cargo de quem estiver envolvido.
A tentação é procurar um único personagem acima de Daniel Vorcaro, alguém capaz de explicar sozinho o tamanho da engrenagem.
Os fatos conhecidos não permitem afirmar que esse personagem exista.
Talvez a pergunta mais importante seja outra.
Como um banqueiro conseguiu chegar tão perto de tantos centros de decisão?
Quem abriu as portas?
Quem recebeu dinheiro por serviços legítimos?
Quem recebeu benefícios?
Quem apenas teve o nome usado por terceiros?
Houve contrapartida?
Alguma decisão pública foi influenciada?
E quem deveria fiscalizar o Master enquanto essa engrenagem crescia?
O jornalismo não pode fabricar essas respostas.
Mas também não pode permitir que as perguntas desapareçam.
Depois de um contrato potencial de R$ 427 milhões, causas de R$ 8,5 bilhões e mensagens que alcançam personagens poderosos, já não basta Brasília dizer que tudo tem uma explicação.
Agora precisa mostrar qual é.