Leão XIV faz duro alerta sobre o poder da inteligência artificial

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Primeira encíclica do pontificado coloca concentração de poder, trabalho, guerras automatizadas e liberdade humana no centro do debate e defende uma IA subordinada à dignidade da pessoa

Por olhonamídia
Política & Economia | Geopolítica
26 de maio de 2026

O Papa Leão XIV colocou a inteligência artificial no centro de uma das discussões mais profundas de seu pontificado. Em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, o líder da Igreja Católica não propõe uma guerra contra a tecnologia. Faz algo diferente: questiona quem controla esse poder, a serviço de quem ele será utilizado e quais limites a humanidade está disposta a estabelecer antes que decisões fundamentais sejam transferidas para máquinas.

O documento foi assinado em 15 de maio de 2026, exatamente 135 anos depois da publicação da histórica Rerum Novarum, de Leão XIII, e apresentado oficialmente no Vaticano em 25 de maio.

A escolha da data carrega forte simbolismo. No século XIX, Leão XIII reagiu às profundas transformações produzidas pela Revolução Industrial e colocou a condição dos trabalhadores no centro da Doutrina Social da Igreja. Agora, Leão XIV estabelece um paralelo entre aquela ruptura histórica e a revolução provocada pela inteligência artificial.

A pergunta mudou de século, mas permanece essencialmente a mesma: o progresso continuará servindo ao homem ou o homem terminará subordinado às estruturas que criou?

O Vaticano não declara guerra à inteligência artificial

A posição de Leão XIV é mais sofisticada do que simplesmente rejeitar a nova tecnologia.

A encíclica reconhece que sistemas de inteligência artificial podem oferecer benefícios concretos em inúmeros setores, processar grandes volumes de informação, auxiliar atividades humanas, aumentar eficiência e contribuir para aliviar determinadas formas de sofrimento.

O Papa rejeita, porém, a ideia de que inteligência artificial e inteligência humana sejam equivalentes.

Segundo o documento, máquinas podem superar seres humanos em velocidade e capacidade de cálculo, reproduzir linguagem, simular comportamentos e até oferecer respostas que parecem demonstrar empatia.

Mas não possuem experiência humana, consciência moral, responsabilidade pessoal ou compreensão real do significado das consequências de suas decisões.

Para o Vaticano, essa diferença não é filosófica apenas. Ela determina quais decisões podem ou não ser transferidas para algoritmos.

O alerta mais forte: a IA precisa ser “desarmada”

Uma das expressões mais contundentes escolhidas por Leão XIV foi utilizada deliberadamente: a inteligência artificial precisa ser “desarmada”.

O significado vai além das armas militares.

Durante a apresentação da encíclica, o Papa explicou que desarmar a IA significa libertá-la das lógicas capazes de transformá-la em instrumento de dominação, exclusão e morte.

Leão XIV não pede que a humanidade desligue a inteligência artificial. Pede que retire dela a capacidade de se transformar em instrumento de poder sem controle humano, responsabilidade moral e fiscalização pública.

A comparação utilizada pelo pontífice é particularmente forte. Assim como a energia nuclear exigiu mecanismos internacionais de controle porque seu poder poderia ameaçar milhões de pessoas, a inteligência artificial também precisaria ser acompanhada por discernimento moral e controle público adequado.

Quando poucas empresas concentram um poder gigantesco

A encíclica dedica atenção especial a uma questão que ultrapassa religião: a concentração do poder tecnológico.

Leão XIV alerta que sistemas digitais, algoritmos, infraestrutura computacional e grandes volumes de dados estão cada vez mais concentrados em organizações com enorme capacidade econômica e tecnológica.

Quando um poder dessa magnitude fica concentrado nas mãos de poucos, adverte o documento, aumenta o risco de opacidade, dependência, manipulação, exclusão e desigualdade.

A preocupação alcança diretamente o funcionamento das sociedades democráticas.

Segundo a encíclica, pequenos grupos muito influentes podem utilizar tecnologia, dados e algoritmos para orientar informação e consumo, influenciar processos democráticos e interferir em dinâmicas econômicas em benefício próprio.

Por isso, o Vaticano sustenta que decisões envolvendo inteligência artificial, especialmente quando atingem direitos fundamentais e bens públicos, precisam estar submetidas a critérios transparentes e mecanismos efetivos de controle.

Algoritmos também carregam escolhas humanas

Outro ponto desmonta uma percepção recorrente sobre sistemas automatizados: a ideia de que algoritmos seriam naturalmente neutros.

Leão XIV alerta que respostas produzidas por sistemas artificiais refletem parâmetros, dados e escolhas realizadas por quem os desenvolveu e treinou.

Isso significa que preconceitos, distorções culturais, prioridades comerciais ou visões específicas da sociedade podem acabar reproduzidos por sistemas apresentados aos usuários como objetivos.

A aparência de neutralidade tecnológica não elimina a responsabilidade humana existente por trás da máquina.

Por isso, a encíclica faz um chamado direto aos desenvolvedores de inteligência artificial.

Para o Papa, quem constrói esses sistemas assume responsabilidade ética pelas escolhas incorporadas aos projetos, incluindo transparência, impactos sobre comunidades e consequências sociais da tecnologia criada.

O risco de terceirizar o próprio pensamento

O documento também entra em uma questão que atinge diretamente milhões de usuários.

A facilidade com que sistemas de inteligência artificial entregam textos, orientações, análises, imagens e respostas complexas pode tornar a vida cotidiana mais simples.

Mas essa mesma facilidade apresenta um risco.

Quanto mais respostas prontas uma pessoa recebe, maior pode ser a tentação de delegar à tecnologia aquilo que deveria permanecer como exercício de julgamento, criatividade e reflexão pessoal.

A preocupação do Vaticano não está apenas na possibilidade de uma máquina errar. Está também no que pode acontecer com seres humanos que gradualmente deixam de exercer determinadas capacidades porque passam a terceirizá-las.

A encíclica ainda chama atenção para sistemas capazes de simular amizade, empatia, conselho e afeto. Para Leão XIV, essa interação pode ser útil em determinados contextos, mas não deve produzir a ilusão de que existe uma relação humana onde há apenas uma simulação computacional.

Trabalho entra novamente no centro da discussão

A ligação histórica com a Rerum Novarum torna-se particularmente evidente quando Leão XIV aborda o trabalho.

A inteligência artificial pode eliminar tarefas repetitivas, ampliar produtividade, melhorar serviços e abrir novas oportunidades econômicas.

Ao mesmo tempo, sua expansão pode reorganizar profissões inteiras, reduzir postos de trabalho e concentrar ganhos econômicos nas empresas e países que controlam infraestrutura, dados e capacidade computacional.

Para o Vaticano, produtividade não pode se transformar no único critério utilizado para medir o valor de uma pessoa.

O debate também alcança trabalhadores quase invisíveis que sustentam a economia digital.

A encíclica chama atenção para pessoas empregadas na etiquetagem de dados, treinamento de modelos e moderação de conteúdos, além da exploração de recursos naturais necessários à produção de dispositivos e semicondutores.

A tecnologia aparentemente imaterial, lembra o documento, depende de energia, minerais, infraestrutura e trabalho humano concreto.

A guerra tecnológica preocupa o Vaticano

É no campo militar que o documento estabelece alguns de seus limites mais rígidos.

Segundo Leão XIV, a revolução digital já está alterando a própria natureza dos conflitos, com ataques cibernéticos, manipulação de informações, campanhas de influência e automação crescente de decisões estratégicas.

A inteligência artificial pode contribuir para defesa, inteligência e proteção de civis. Mas também pode reduzir as barreiras para utilização da força e tornar cada vez mais distante a responsabilidade humana por uma decisão letal.

O Papa rejeita a transferência para sistemas artificiais de decisões letais ou irreversíveis.

O argumento é direto: julgamento moral não pode ser reduzido a cálculo estatístico.

Uma máquina pode identificar um alvo, calcular probabilidades ou processar informações em velocidade impossível para um ser humano. Mas não possui consciência moral capaz de assumir responsabilidade pela morte de outra pessoa.

É nesse ponto que a advertência sobre “desarmar” a inteligência artificial ganha seu significado mais dramático.

IA também virou uma disputa de poder mundial

A encíclica surge em um momento no qual inteligência artificial deixou de ser apenas uma corrida empresarial.

Governos tratam semicondutores, centros de dados, modelos avançados, infraestrutura energética e capacidade computacional como ativos estratégicos.

Estados Unidos, China, União Europeia e outras potências disputam liderança tecnológica enquanto governos procuram estabelecer regras capazes de controlar riscos sem comprometer competitividade e segurança nacional.

A corrida pela IA tornou-se também uma disputa por poder econômico, militar e geopolítico.

Nesse cenário, a mensagem do Vaticano procura deslocar a discussão: antes de perguntar qual país ou empresa terá o sistema mais poderoso, seria necessário perguntar quais valores orientarão esse poder.

Quatro meses depois, Leão XIV volta ao tema

A publicação da encíclica não encerrou a atuação do pontífice sobre inteligência artificial.

Em 21 de setembro, Leão XIV voltou ao assunto em mensagem dirigida ao encontro internacional AI4Peace, realizado na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma.

O Papa defendeu que o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial seja orientado para fortalecer a paz e a unidade humana, e não para alimentar divisões e conflitos.

A manifestação reforça que a inteligência artificial não foi escolhida apenas como tema circunstancial da primeira encíclica. Ela passou a ocupar posição estratégica no pensamento social do novo pontificado.

O limite que nenhuma máquina deveria ultrapassar

A Magnifica Humanitas não apresenta uma fórmula técnica para regulamentar inteligência artificial e o próprio Vaticano reconhece que não pretende substituir cientistas, engenheiros ou governos nessa tarefa.

A contribuição da Igreja está em outro terreno.

Leão XIV procura estabelecer uma fronteira moral: tecnologia pode auxiliar seres humanos, ampliar capacidades e transformar profundamente a sociedade, mas não deve assumir aquilo que depende de consciência, responsabilidade e dignidade humana.

O conflito central, portanto, não é homem contra máquina.

É entre duas possibilidades de progresso.

Uma utiliza inteligência artificial para ampliar oportunidades, reduzir sofrimento e servir ao bem comum. A outra concentra poder, transforma pessoas em dados, substitui responsabilidade por automação e utiliza eficiência tecnológica como justificativa para decisões que ninguém mais parece disposto a assumir.

A pergunta deixada pela primeira encíclica de Leão XIV ultrapassa os limites da Igreja Católica.

Se a inteligência artificial está adquirindo poder para transformar trabalho, política, informação, relações humanas e até guerras, quem estabelecerá os limites — e quem responderá quando esses limites forem ultrapassados?

Atualização: esta reportagem foi publicada originalmente em 26 de maio de 2026 e atualizada em 22 de setembro de 2026 para incorporar novos posicionamentos do Papa Leão XIV sobre inteligência artificial, incluindo sua mensagem ao encontro internacional AI4Peace.

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