Luiz Inácio Lula da Silva voltou à Presidência prometendo recolocar o Brasil no centro das grandes decisões internacionais. Quase quatro anos depois, porém, alguns dos movimentos recentes da diplomacia brasileira permitem uma pergunta incômoda: o tamanho do discurso do presidente ainda corresponde ao tamanho de sua influência?
A questão ganhou força depois de um revés particularmente simbólico. Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e nome apoiado pelo Brasil para comandar a Organização das Nações Unidas, retirou sua candidatura depois de perder sustentação nas consultas informais realizadas no Conselho de Segurança.
Na terceira sondagem informal, o apoio à chilena havia praticamente desmoronado. A candidatura que Brasília pretendia ajudar a transformar em uma demonstração de capacidade diplomática terminou antes da decisão final.
A aposta de Lula desmorona na ONU
Bachelet não era uma candidata irrelevante. Duas vezes presidente do Chile e ex-alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, carregava currículo internacional suficiente para entrar seriamente na disputa pela sucessão de António Guterres.
O Brasil decidiu apoiá-la. Mas currículo e apoio brasileiro não foram suficientes para construir uma coalizão capaz de sustentá-la dentro do Conselho de Segurança, onde está o verdadeiro funil da escolha do próximo secretário-geral.
Esse detalhe importa porque separa retórica de poder. Diplomacia não se mede apenas pelo espaço ocupado em discursos, cúpulas e fotografias. Mede-se também pela capacidade de convencer governos, formar maiorias, negociar interesses e transformar prestígio político em resultado.
Nesse teste, a aposta apoiada por Brasília fracassou.
Protagonismo reivindicado, influência contestada
Desde o início do terceiro mandato, Lula procurou recuperar para si o papel de grande interlocutor do Sul Global. Falou sobre Ucrânia, Gaza, Venezuela, reforma da governança internacional, BRICS e reorganização da ordem mundial.
É uma estratégia legítima de política externa. O problema surge quando a pretensão de protagonismo encontra resistência dos próprios atores que Brasília pretende influenciar.
Na guerra da Ucrânia, declarações de Lula provocaram críticas ao sugerirem responsabilidades também de Kiev e dos países ocidentais no prolongamento do conflito. Em relação à Venezuela, sua postura diante do regime de Nicolás Maduro também alimentou divergências com governos e setores políticos que cobram uma condenação mais dura ao autoritarismo venezuelano.
Agora, a candidatura de Bachelet acrescenta outro episódio à discussão: quando chegou o momento de converter influência política em votos dentro de uma das instituições mais importantes do planeta, o resultado ficou muito abaixo da ambição brasileira.
Enquanto Lula discursa, uma nova articulação avança sem o Brasil
Outro movimento ocorrido nesta mesma semana ampliou o contraste.
Estados Unidos e outros 14 países integram o chamado Escudo das Américas, articulação regional criada para coordenar medidas contra organizações criminosas transnacionais. Argentina, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru, Equador e outras nações participam da iniciativa. O Brasil ficou de fora.
A ausência brasileira não significa, por si só, isolamento diplomático. Brasília rejeita aspectos da estratégia americana e sustenta preocupações com soberania e interferência externa. Também existem especialistas que enxergam a iniciativa de Washington como instrumento de ampliação da influência americana na América Latina.
Mas o cenário produz uma imagem politicamente desconfortável para o Planalto: enquanto Lula reivindica liderança regional, vários governos latino-americanos participam de uma articulação estratégica liderada por Washington sem a presença brasileira.
O contraste entre o microfone e os bastidores
Lula continua sendo presidente da maior economia da América Latina e comanda um país integrante do G20, do BRICS e de importantes fóruns multilaterais. Tratar o Brasil como irrelevante internacionalmente seria incompatível com esses fatos.
Mas isso não elimina a discussão sobre a influência pessoal e diplomática de seu governo.
Existe uma diferença entre o peso estrutural do Brasil e a capacidade de um presidente transformar esse peso em resultados. É exatamente essa diferença que os episódios recentes colocam sob os holofotes.
O presidente mantém uma retórica de estadista global. Fala sobre reorganizar instituições internacionais, solucionar conflitos e construir uma nova arquitetura de poder mundial. Só que política externa não distribui troféus por ambição.
No fim, contam os aliados conquistados, os acordos construídos e as propostas que conseguem sair do discurso.
E dentro de casa?
Também seria incorreto afirmar que existe unanimidade entre os brasileiros contra Lula. Não existe.
Mas os números mais recentes mostram um governo pressionado. Pesquisa Ipsos-Ipec realizada entre 9 e 13 de setembro registrou 43% avaliando a administração como ruim ou péssima, contra 33% que a consideravam ótima ou boa. Outros 23% classificaram o governo como regular.
Na pergunta sobre a maneira de governar, 42% disseram aprová-la. Os números, portanto, mostram desgaste relevante, mas também uma sociedade politicamente dividida.
É justamente essa realidade que torna mais arriscado para Lula investir tanto capital político na imagem de líder internacional: quanto maior a promessa de protagonismo, maior a cobrança quando os resultados não aparecem.
O tamanho do Brasil não garante o tamanho de seu presidente
Talvez esse seja o ponto mais incômodo para o discurso construído pelo Planalto.
O Brasil continua grande. Tem território continental, mais de 200 milhões de habitantes, enorme produção de alimentos e energia, recursos naturais estratégicos e peso econômico suficiente para que nenhuma potência relevante simplesmente ignore Brasília.
Isso, porém, é patrimônio do país — não um certificado automático de prestígio para quem ocupa o Palácio do Planalto.
A influência de um presidente precisa ser construída e demonstrada.
A queda da candidatura apoiada pelo Brasil na ONU não prova sozinha que Lula esteja internacionalmente isolado. A ausência brasileira do Escudo das Américas também possui razões políticas e estratégicas que precisam ser consideradas.
Juntos, entretanto, esses episódios alimentam uma crítica que o governo terá dificuldade de responder apenas com discursos: Lula pretende falar em nome de uma potência emergente, mas precisa demonstrar que ainda consegue transformar o tamanho do Brasil em influência concreta.
E talvez esteja justamente aí a fotografia mais dura deste momento da política externa brasileira: o Brasil permanece grande; a discussão agora é se o protagonismo reivindicado por Lula continua do mesmo tamanho.