Presidente voltou a atacar a operação que marcou a política brasileira; quatro meses depois, empresas envolvidas nos escândalos ainda cumprem acordos bilionários, enquanto decisões do STF alimentam a disputa sobre o legado da Lava Jato
Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a Operação Lava Jato como a “grande mentira do século XXI” no Brasil, em maio de 2026, não estava apenas revisitando um dos capítulos mais explosivos de sua trajetória política. Estava entrando novamente em uma disputa sobre a memória de uma operação que revelou esquemas de corrupção, levou empresários e agentes públicos aos tribunais e, anos depois, também acumulou decisões judiciais que atingiram parte de seus processos e métodos.
Quatro meses depois, a discussão continua longe de encerrada.
De um lado, Lula sustenta que a Lava Jato destruiu empresas, empregos e reputações e critica duramente a atuação do então juiz Sergio Moro e do ex-procurador Deltan Dallagnol.
Do outro, permanece uma realidade documental que não desapareceu com as decisões posteriores dos tribunais: empresas envolvidas nos casos celebraram acordos de leniência, reconheceram responsabilidades e assumiram compromissos financeiros bilionários com o poder público.
A história, portanto, é mais complexa do que duas versões aparentemente irreconciliáveis.
Lula volta a atacar a Lava Jato
Em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, em 22 de maio, Lula afirmou que a Lava Jato havia sido a “grande mentira do século XXI” no país.
O presidente também atacou diretamente Sergio Moro e Deltan Dallagnol e argumentou que empresas deveriam ter sido preservadas mesmo quando seus dirigentes fossem responsabilizados por corrupção.
A crítica não era nova.
Lula há anos sustenta que a operação ultrapassou o combate à corrupção e provocou danos econômicos e políticos ao país. Em maio, voltou a defender a ideia de que eventuais crimes deveriam resultar na responsabilização de seus autores, sem destruir companhias e empregos.
Essa é a interpretação política defendida pelo presidente. Ela, porém, não encerra a discussão jurídica nem apaga os fatos documentados nos acordos firmados pelas próprias empresas.
O que aconteceu com as condenações de Lula
Uma das maiores fontes de confusão no debate sobre a Lava Jato está no significado das decisões que atingiram os processos contra Lula.
Em 2021, o Supremo Tribunal Federal confirmou a anulação das condenações do então ex-presidente relacionadas aos processos que haviam tramitado na 13ª Vara Federal de Curitiba.
O fundamento central foi a incompetência daquele juízo para processar e julgar essas ações. O STF entendeu que os casos envolvendo o tríplex do Guarujá, o sítio de Atibaia e o Instituto Lula não possuíam a relação necessária com os desvios da Petrobras que justificasse sua tramitação na vara de Curitiba.
A Segunda Turma do Supremo também reconheceu a parcialidade de Sergio Moro na condução do processo do tríplex.
Essas decisões tiveram consequências jurídicas profundas para os processos de Lula.
Mas existe uma distinção indispensável: a anulação das condenações de Lula não equivale a uma decisão do STF declarando que todos os fatos investigados pela Operação Lava Jato eram inexistentes ou que toda a operação havia sido uma fraude.
Confundir essas duas coisas transforma uma decisão processual concreta em uma conclusão muito mais ampla do que aquela efetivamente tomada pelos tribunais.
A Lava Jato foi muito maior do que os processos contra Lula
A Operação Lava Jato começou em 2014 e se expandiu por diferentes investigações envolvendo Petrobras, empreiteiras, intermediários, executivos, operadores financeiros e agentes políticos.
Ao longo dos anos, decisões foram revistas, processos foram anulados ou transferidos, métodos de investigação foram duramente questionados e a própria força-tarefa de Curitiba foi encerrada.
Ao mesmo tempo, acordos celebrados por empresas continuaram produzindo efeitos jurídicos e financeiros.
Essa é uma parte da história que frequentemente desaparece quando a Lava Jato é resumida apenas à trajetória judicial de Lula.
Os processos do presidente foram um capítulo politicamente central da operação, mas não foram a operação inteira.
Odebrecht virou Novonor, mas o acordo permaneceu
Um dos exemplos mais emblemáticos é o antigo Grupo Odebrecht, hoje denominado Novonor.
Em julho de 2018, a Odebrecht celebrou acordo de leniência com a Controladoria-Geral da União e a Advocacia-Geral da União.
Segundo os dados oficiais da CGU, o acordo estabeleceu aproximadamente R$ 2,7 bilhões em pagamentos à União e aos entes lesados.
O documento envolveu 49 contratos do grupo com o poder público e contemplou devolução de vantagens obtidas com atos ilícitos, reparação de danos e multas.
A própria CGU registra que os atos abrangidos pelo acordo envolveram fraudes em licitações e contratos, pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos e conluio entre empresas.
Esses compromissos não desapareceram com a mudança da marca Odebrecht para Novonor.
A empresa mudou de nome, reorganizou seus negócios e buscou reconstruir sua reputação, mas permaneceu vinculada às obrigações assumidas nos acordos celebrados com o Estado brasileiro.
A conta dos acordos continua aberta
O caso da Novonor também faz parte de uma estrutura muito maior.
Dados consolidados pela CGU, atualizados em julho de 2026, apontam 37 acordos de leniência celebrados, R$ 20,12 bilhões em valores acordados e R$ 11,29 bilhões já pagos.
Nem todos esses acordos pertencem à Lava Jato, razão pela qual os números não podem ser apresentados como se fossem exclusivamente resultado da operação.
Mas empresas diretamente associadas aos grandes escândalos revelados naquele período continuam inseridas nesse universo de compromissos financeiros.
Uma apuração publicada em setembro mostrou ainda dificuldades no cumprimento de parcelas por algumas das grandes empreiteiras que firmaram acordos relacionados à Lava Jato. No grupo analisado pela reportagem, aproximadamente R$ 3,6 bilhões de R$ 11,5 bilhões pactuados haviam sido pagos, mesmo após renegociações e flexibilizações promovidas pelo governo.
Entre as empresas citadas estavam Novonor, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, UTC, OAS, Nova Participações e Braskem.
Ou seja: mais de uma década depois do início da Lava Jato, parte de suas consequências financeiras continua sendo administrada pelo próprio Estado brasileiro.
Empresas destruídas ou empresas responsabilizadas?
Essa talvez seja uma das questões mais difíceis — e mais importantes — deixadas pela Lava Jato.
Lula argumenta que a operação errou ao atingir empresas inteiras e, consequentemente, trabalhadores e cadeias produtivas.
Críticos dessa interpretação sustentam que a crise das empreiteiras decorreu também das próprias práticas empresariais reveladas pelas investigações e que responsabilizar pessoas jurídicas fazia parte dos mecanismos anticorrupção previstos na legislação.
As duas discussões não precisam ser tratadas como mutuamente excludentes.
Uma empresa pode ter praticado atos ilícitos e, ao mesmo tempo, a forma utilizada pelo Estado para investigá-la ou puni-la pode ser objeto de questionamento quanto aos seus efeitos econômicos.
A pergunta relevante não é se corrupção deve ser combatida — esse é um dever institucional. A questão é como responsabilizar dirigentes e empresas, recuperar recursos públicos e preservar empregos e atividade produtiva sempre que juridicamente possível.
Os atuais acordos de leniência refletem justamente uma tentativa de responder a esse dilema: empresas colaboram, reconhecem responsabilidades, pagam valores e adotam compromissos de integridade em troca de benefícios previstos em lei.
Nem “tudo mentira”, nem operação acima de qualquer crítica
A história da Lava Jato resiste às explicações simples.
Houve esquemas de corrupção documentados, acordos empresariais, recuperação de recursos e responsabilizações.
Também houve decisões judiciais posteriores que reconheceram problemas graves em processos importantes, incluindo incompetência da 13ª Vara de Curitiba para julgar as ações contra Lula e parcialidade de Sergio Moro no processo do tríplex.
Uma coisa não elimina automaticamente a outra.
Reconhecer os problemas jurídicos da Lava Jato não exige negar os esquemas de corrupção documentados. Reconhecer os crimes e acordos revelados pela operação também não exige defender todos os métodos empregados por seus investigadores.
É justamente nesse espaço entre as duas narrativas que está a parte mais difícil da história.
Em 2026, a Lava Jato voltou às urnas
A declaração de Lula ocorreu em um ano eleitoral e recolocou a operação dentro da disputa política brasileira.
Para o presidente e seus aliados, a Lava Jato tornou-se símbolo de abusos judiciais, destruição econômica e perseguição política.
Para adversários de Lula e defensores do legado da operação, ela permanece associada à exposição de esquemas de corrupção e à responsabilização de empresários e agentes públicos.
Sergio Moro reagiu às declarações de Lula e defendeu novamente a operação, afirmando que ela recuperou recursos para a Petrobras e responsabilizou envolvidos em corrupção.
São interpretações políticas concorrentes sobre um episódio cujas consequências jurídicas, econômicas e institucionais continuam sendo discutidas.
O problema começa quando qualquer uma dessas narrativas tenta substituir a documentação disponível.
O passado que o Brasil ainda não resolveu
Doze anos depois do início da Lava Jato, o país ainda discute o que fazer com seu legado.
A operação deixou condenações, acordos, devoluções de recursos e mudanças importantes na relação entre grandes empresas e o poder público. Também deixou decisões anuladas, controvérsias sobre competência judicial, questionamentos sobre imparcialidade e uma discussão ainda aberta sobre os limites das instituições no combate à corrupção.
A antiga Odebrecht agora se chama Novonor. A força-tarefa de Curitiba não existe mais. Lula voltou à Presidência da República. Sergio Moro entrou para a política. Deltan Dallagnol também passou pelas urnas.
Mas os acordos financeiros continuam sendo monitorados.
Talvez esteja aí a principal contradição dessa história: politicamente, diferentes grupos tentam decretar uma versão definitiva da Lava Jato; documentalmente, suas consequências ainda estão sendo pagas, renegociadas, julgadas e discutidas.
Em plena eleição de 2026, a operação voltou a servir como arma na disputa pelo passado.
Para o eleitor, entretanto, existe uma pergunta mais importante do que escolher entre duas narrativas absolutas: o que os documentos, as decisões judiciais e os resultados efetivamente permitem afirmar?
Esta reportagem, publicada originalmente em 25 de maio de 2026, foi atualizada para incorporar decisões judiciais relevantes, dados oficiais da Controladoria-Geral da União sobre acordos de leniência e informações posteriores sobre o cumprimento de obrigações financeiras por empresas envolvidas em casos relacionados à Operação Lava Jato.