Senador afirmou que Lula ficaria “irrelevante” a partir de 2027 durante ofensiva para aproximar sua candidatura do agronegócio; quatro meses depois, embate entre os dois está no centro da eleição presidencial
Uma frase lançada ainda no primeiro semestre ajudou a antecipar o tom que a disputa presidencial assumiria meses depois. Durante uma ofensiva política em direção ao agronegócio, Flávio Bolsonaro colocou Luiz Inácio Lula da Silva diretamente no centro de seu discurso eleitoral e projetou uma mudança de poder a partir de 2027.
“Vocês não vão mais ouvir falar de Lula a partir de 2027”, afirmou o senador durante evento do setor agropecuário realizado em São Paulo, em abril.
A declaração tinha evidente caráter político. Mas o contexto em que foi feita dizia tanto quanto a própria frase: Flávio buscava estreitar relações com um dos setores economicamente mais relevantes do país e tradicionalmente disputado pela direita brasileira.
O agro entra no centro da estratégia
Flávio participou do evento ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e fez uma sequência de acenos aos produtores rurais.
Em seu discurso, criticou a política do governo Lula para o setor, questionou condições de financiamento e afirmou que o agronegócio precisava ser tratado como parte da solução econômica do país.
Era mais do que uma crítica ao governo. O senador buscava construir identificação política com uma base que teve papel importante no campo conservador nos últimos ciclos eleitorais.
Ao mesmo tempo, a ofensiva mostrava que a eleição de 2026 já começava a ser disputada muito antes da campanha oficial.
A crítica de Flávio encontrou reação do governo
As declarações contra a política federal para o agronegócio não ficaram sem resposta.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, contestou as críticas e apresentou números para defender a atuação da instituição durante o governo Lula.
Entre os argumentos apresentados pelo governo estava o crescimento dos recursos aprovados pelo banco para o setor agropecuário e para investimentos ligados à agroindústria.
Esse contraditório é importante porque a afirmação de que o governo Lula prejudicava ou desprezava o agronegócio era uma acusação política de Flávio Bolsonaro, e não um fato que possa ser apresentado isoladamente como conclusão jornalística.
Tarcísio aparecia ao lado, mas Flávio construía o próprio caminho
A presença de Tarcísio de Freitas naquele evento também carregava peso político.
Flávio elogiou o governador paulista e afirmou que ele teria capacidade para ocupar a Presidência no futuro. Ao mesmo tempo, avançava na construção de sua própria candidatura nacional.
A cena expunha uma característica daquele momento da direita brasileira: a tentativa de preservar unidade política enquanto diferentes lideranças acumulavam capital para o futuro.
Nos meses seguintes, Flávio aprofundaria sua atuação como candidato presidencial e aumentaria o confronto direto com Lula.
De uma frase de abril para uma campanha nacional
O que em abril poderia parecer apenas uma provocação de palanque ganhou outra dimensão com o avanço de 2026.
Flávio passou a fazer declarações cada vez mais diretamente relacionadas à disputa pelo Planalto, defendendo propostas próprias, atacando políticas do governo federal e vinculando sua candidatura ao legado político do pai, Jair Bolsonaro.
No fim de maio, afirmou que pretendia derrotar o PT e declarou que Jair Bolsonaro subiria a rampa do Palácio do Planalto com ele em 2027.
A retórica mostrava que a campanha deixava progressivamente o terreno das sinalizações e entrava no confronto eleitoral direto.
O agro continua sendo território disputado
A aproximação de Flávio com o agronegócio não significa, porém, que o setor possa ser tratado como um bloco eleitoral uniforme.
Produtores, empresários, cooperativas e entidades possuem interesses econômicos, regionais e políticos diferentes. Embora segmentos importantes tenham mantido forte identificação com a direita nos últimos anos, o governo federal também buscou ampliar sua interlocução com o setor.
Por isso, a disputa pelo agro envolve mais do que presença em feiras ou declarações políticas. Passa por crédito, endividamento rural, exportações, infraestrutura, tributação, segurança jurídica e acesso a mercados internacionais.
É nesse terreno que discursos eleitorais precisam ser confrontados com políticas públicas e resultados mensuráveis.
A frase que antecipou o confronto
A declaração sobre Lula envelheceu menos como previsão e mais como retrato da estratégia eleitoral que começava a ser montada.
Flávio tentava ocupar o espaço de principal adversário do presidente, aproximar-se de setores estratégicos e transformar a insatisfação com o governo em uma candidatura nacional.
Lula, por sua vez, manteve a candidatura à reeleição e passou a confrontar diretamente o campo bolsonarista durante a campanha.
Quatro meses depois, os dois estão no centro de uma eleição muito mais concreta do que aquela que começava a ser desenhada quando a frase foi pronunciada.
A disputa agora não está apenas no terreno das declarações. Está nas propostas, nos programas eleitorais, nas alianças, na economia, nas redes sociais e na decisão que caberá ao eleitor brasileiro nas urnas.
reportagem originalmente publicada em maio e revisada para incorporar a evolução do cenário eleitoral. A atualização preserva o contexto histórico da declaração e acrescenta acontecimentos posteriores relevantes para compreender a disputa presidencial de 2026.