Durante mais de três décadas, falar de poder em Alagoas significou, inevitavelmente, passar pelo nome de Renan Calheiros. A eleição de 2026, porém, produziu uma fotografia política que rompe uma sequência iniciada ainda nos anos 1990: Renan ficou fora das duas vagas em disputa para o Senado, enquanto Renan Filho foi derrotado por JHC na corrida pelo governo estadual.
Em uma única eleição, duas das posições mais importantes disputadas pelo grupo escaparam das mãos dos Calheiros.
Não significa o desaparecimento político da família. Renan Filho mantém mandato no Senado até 2031, e o MDB continua com estrutura e aliados no estado. Mas as urnas de 2026 atingiram dois pilares de uma engrenagem de poder construída durante décadas.
Mais do que uma derrota eleitoral, Alagoas assistiu a uma mudança de ciclo.
Renan fica fora do Senado depois de quatro mandatos
A derrota mais simbólica ocorreu justamente no território em que Renan Calheiros construiu boa parte de sua influência nacional: o Senado Federal.
Arthur Lira (PP) e Marina JHC (PSDB) conquistaram as duas cadeiras de Alagoas em disputa. Renan, que buscava um quinto mandato consecutivo, terminou fora das duas primeiras posições.
O resultado interrompe uma trajetória iniciada em 1995.
Renan foi eleito para quatro mandatos consecutivos e chegará ao fim do atual período, em janeiro de 2027, depois de aproximadamente 32 anos de presença contínua no Senado.
Nesse intervalo, deixou de ser apenas um representante de Alagoas para se tornar um dos personagens de maior longevidade na política de Brasília. Foi eleito presidente do Senado em quatro ocasiões — 2005, 2007, 2013 e 2015 —, além de ocupar postos de liderança e participar diretamente de alguns dos principais embates políticos das últimas décadas.
Renan Calheiros chegou ao Senado em 1995 e foi eleito para quatro mandatos consecutivos. A derrota de 2026 interrompe uma sequência de mais de três décadas do parlamentar na Casa.
Lira entra no Senado; o velho rival fica de fora
Há ainda um componente de forte simbolismo político no resultado.
Arthur Lira, adversário dos Calheiros na disputa pelo comando político de Alagoas, deixa a Câmara dos Deputados e chega ao Senado justamente na eleição que retira Renan da Casa.
Lira presidiu a Câmara entre 2021 e o início de 2025 e construiu, nesse período, uma extensa rede de interlocução no Congresso. Em 2026, mudou o destino eleitoral e conquistou pela primeira vez uma cadeira no Senado.
A segunda vaga ficou com Marina JHC, ex-primeira-dama de Maceió e esposa de João Henrique Caldas, o JHC.
Marina chega ao Senado em seu primeiro cargo eletivo, enquanto JHC deixa a prefeitura de Maceió para assumir o governo de Alagoas.
É aí que o resultado ganha dimensão maior: a derrota de Renan ocorre ao mesmo tempo em que dois polos adversários aos Calheiros avançam sobre posições estratégicas do poder alagoano.
A derrota veio em dose dupla
Se a disputa pelo Senado já representava uma ruptura, a eleição para governador ampliou o tamanho do revés.
JHC (PSDB) derrotou Renan Filho (MDB) ainda no primeiro turno.
Com a vitória matematicamente confirmada durante a apuração, JHC alcançou 52,09% dos votos válidos, contra 47,48% de Renan Filho.
O resultado impediu o retorno de Renan Filho ao Palácio República dos Palmares.
Ele já havia governado Alagoas por dois mandatos, entre 2015 e 2022, antes de se eleger senador e posteriormente assumir o Ministério dos Transportes.
Agora, a família termina a eleição sem conseguir preservar a cadeira de Renan no Senado e sem recuperar o comando do Executivo estadual.
A eleição produziu uma inversão simbólica em Alagoas: Renan Calheiros deixa o Senado enquanto Arthur Lira chega à Casa; Renan Filho perde a disputa pelo governo enquanto JHC assume o Executivo estadual e Marina JHC conquista uma das cadeiras alagoanas no Senado.
Fim de uma era?
O resultado permite falar no encerramento de uma era eleitoral, mas exige uma distinção importante.
Os Calheiros não desapareceram do mapa político.
Renan Filho foi eleito senador em 2022 e seu mandato vai até 2031. O MDB também continua presente no estado e mantém uma rede política construída ao longo dos anos.
O que terminou nas urnas foi outra coisa: a sequência ininterrupta de Renan Calheiros no Senado e a capacidade do grupo de converter sua força política, nesta eleição, nas duas posições centrais que disputava.
É uma diferença fundamental.
Renan atravessou governos de diferentes orientações, crises nacionais, mudanças partidárias e sucessivas transformações no Congresso. Desde que chegou ao Senado, em 1995, venceu todas as eleições seguintes em que buscou permanecer na Casa.
Em 2026, essa sequência terminou.
O resultado de Alagoas chega a Brasília
A eleição alagoana também produz efeitos no tabuleiro nacional.
A chegada de Arthur Lira ao Senado coloca na Casa um político que já comandou a Câmara dos Deputados e acumulou experiência nas negociações entre Congresso, Executivo e partidos do chamado Centrão.
Por isso, seu nome passou a aparecer nas análises e conversas de bastidores sobre a futura disputa pela Presidência do Senado.
O programa News Primeira Edição, ao analisar o resultado das urnas, discutiu justamente essa possibilidade e relacionou a nova composição do Senado às futuras disputas internas da Casa.
Há também movimentações envolvendo outros nomes, entre eles Rogério Marinho, em um cenário no qual a relação entre Senado, governo e Supremo Tribunal Federal deverá continuar no centro das articulações políticas.
É importante separar, entretanto, fato de projeção. A eleição de Arthur Lira para o Senado está definida; uma eventual candidatura dele à Presidência da Casa, assim como compromissos relacionados a pedidos de impeachment de ministros do STF, pertence neste momento ao terreno das articulações e especulações políticas.
As urnas mudaram o tabuleiro
Renan Calheiros construiu uma trajetória marcada pela capacidade de permanecer no centro do poder mesmo quando o ambiente político ao redor mudava.
Foram quatro mandatos consecutivos no Senado e quatro passagens pela Presidência da Casa.
A eleição de 2026 introduziu uma ruptura nessa trajetória.
Arthur Lira segue para o Senado. Marina JHC estreia em um mandato eletivo. JHC assume o governo estadual. Renan Filho permanece senador, mas não conseguiu retornar ao comando de Alagoas. E Renan Calheiros encerrará, em 2027, a sequência iniciada em 1995.
Não é o desaparecimento dos Calheiros da política. É o fim de uma configuração de poder que atravessou mais de três décadas.
E talvez seja exatamente por isso que o resultado de Alagoas tenha produzido uma das imagens mais simbólicas das eleições de 2026: pela primeira vez em 32 anos, o próximo Senado começará seus trabalhos sem Renan Calheiros entre seus integrantes.
Apuração do Olho na Mídia com dados e informações do Tribunal Superior Eleitoral, Senado Federal, Agência Senado e Agência Brasil. A análise sobre os desdobramentos da nova composição do Senado considera também o debate exibido pelo News Primeira Edição. Menções a futuras candidaturas à Presidência do Senado e a eventuais processos contra ministros do STF são tratadas como articulações e análises de bastidores, não como fatos consumados.