Brasil 2026: entre promessas, avanços e contas que ainda não fecharam

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Emprego em baixa histórica convive com juros altos, famílias endividadas e economia perdendo fôlego; da picanha às canetas emagrecedoras, uma nova eleição recoloca promessas populares no centro da disputa pelo país

Por olhonamídia
Política & Economia | Eleições 2026
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22 de setembro de 2026

Quatro anos depois, o Brasil volta às urnas. A propaganda mudou, os candidatos reorganizaram suas estratégias e novas promessas começaram a disputar espaço nas telas, nos palanques e nas redes sociais. Mas algumas perguntas continuam sobre a mesa: o dinheiro compra mais ou menos? O país está mais seguro? A corrupção diminuiu? O emprego melhorou? E quanto do que foi prometido na eleição passada chegou, de fato, à vida cotidiana?

Responder a essas perguntas exige escapar de duas fotografias igualmente incompletas.

O Brasil de 2026 não é um país em que todos os indicadores pioraram. O desemprego caiu para níveis historicamente baixos, a renda do trabalho avançou e determinados indicadores sociais e de segurança apresentaram melhora.

Mas também não é o país em que todos os problemas desapareceram.

Juros continuam elevados, milhões de brasileiros convivem com dívidas, a atividade econômica perdeu velocidade, diferentes formas de violência permanecem graves e novos casos envolvendo suspeitas de corrupção voltaram ao centro do debate público.

Entre o Brasil da propaganda oficial e o Brasil descrito pela oposição existe um terceiro país: aquele que aparece nos números, nas contas e na vida das pessoas.

É esse Brasil que o Olho na Mídia decidiu observar às vésperas de uma nova eleição presidencial.

O emprego melhorou — e isso é um fato

Qualquer balanço sério dos últimos anos precisa começar reconhecendo um dos indicadores mais favoráveis da economia brasileira.

A taxa de desemprego chegou a 5,4% no segundo trimestre de 2026.

É um mercado de trabalho muito diferente daquele observado em períodos recentes de recessão e desemprego elevado.

A melhora da ocupação e da renda ajuda a explicar por que uma parcela da população experimenta uma situação econômica melhor do que aquela sugerida por discursos que descrevem o país exclusivamente como estando em crise.

Mas emprego não responde sozinho à pergunta sobre qualidade de vida.

Uma pessoa pode estar empregada e, ao mesmo tempo, pagar juros elevados, enfrentar aluguel caro, ter dívidas acumuladas ou perceber que determinadas despesas consomem parcela crescente do orçamento doméstico.

É nesse ponto que começa a aparecer o outro lado da economia de 2026.

A economia cresce, mas perdeu velocidade

O Produto Interno Bruto acumulou crescimento de 1,9% nos quatro trimestres encerrados no segundo trimestre de 2026.

Há crescimento, portanto.

Mas o ritmo diminuiu.

Em setembro, o Ministério da Fazenda reduziu sua projeção para o crescimento da economia brasileira em 2026 de 2,3% para 2%.

A desaceleração aparece em setores importantes da atividade econômica e ocorre em um ambiente ainda marcado por juros elevados.

O Banco Central reduziu a taxa Selic pela quinta vez consecutiva em setembro, mas ela permaneceu em 13,75% ao ano.

Juros nesse patamar encarecem financiamentos, cartões, capital de giro, investimentos empresariais e diferentes modalidades de crédito.

O resultado é um Brasil que continua crescendo, mas no qual consumidores e empresas ainda convivem com dinheiro caro.

A inflação caiu. O preço voltou para trás?

Outro número exige interpretação cuidadosa.

Em agosto, o IPCA registrou deflação de 0,32%. Em 12 meses, a inflação acumulada ficou em 4,22%.

A desaceleração da inflação representa alívio importante.

Mas inflação menor não significa necessariamente que tudo aquilo que encareceu nos anos anteriores tenha retornado aos preços antigos.

Quando a inflação diminui, os preços passam a subir mais lentamente — e alguns podem efetivamente cair. Isso é diferente de uma reversão generalizada do custo de vida acumulado.

É justamente essa diferença que ajuda a compreender por que estatísticas de inflação podem melhorar sem que todas as famílias tenham a mesma percepção no supermercado, na farmácia ou no pagamento das contas mensais.

A picanha virou mais do que um pedaço de carne

Poucas imagens eleitorais foram tão eficientes na campanha de 2022 quanto a picanha.

Naquele período, Luiz Inácio Lula da Silva repetiu que o brasileiro precisava recuperar condições de reunir a família, fazer churrasco, comer carne e tomar cerveja.

A frase ficou associada à promessa de recuperação do poder de compra.

Depois da eleição, Lula afirmou que a referência à picanha deveria ser compreendida como uma representação da capacidade de consumo do trabalhador, e não simplesmente como a entrega literal de determinado corte de carne.

Ainda assim, a imagem permaneceu.

Em março de 2025, o próprio presidente voltou ao assunto e disse que a população voltaria a comer picanha porque acreditava que o preço da carne cairia.

Em 2026, a pergunta mais útil não é saber se o governo “entregou uma picanha”. É saber se o brasileiro recuperou poder de compra suficiente para escolher melhor aquilo que coloca no carrinho.

Isso exige olhar simultaneamente para salário, emprego, inflação dos alimentos, preços, endividamento e renda disponível.

É nesse conjunto — e não apenas em uma frase de campanha — que uma promessa de melhoria de vida deve ser confrontada com a realidade.

Empregado, mas endividado

O endividamento é outra peça dessa fotografia.

Mesmo com mercado de trabalho aquecido, uma parcela expressiva da renda das famílias continua comprometida com dívidas.

Dados recentes do Banco Central apontam comprometimento próximo da metade da renda acumulada das famílias quando considerado o estoque de endividamento.

O cartão de crédito e outras modalidades de financiamento de alto custo continuam representando um problema especialmente pesado para consumidores que entram em atraso.

Programas de renegociação conseguem produzir alívio para milhões de pessoas, mas não eliminam as causas que levam famílias novamente ao crédito caro.

O paradoxo de 2026 é justamente este: o Brasil conseguiu produzir muito emprego, mas uma parcela dos trabalhadores continua chegando ao fim do mês pressionada por compromissos financeiros acumulados.

E há novos componentes nessa equação.

Compras digitais, plataformas internacionais e apostas esportivas passaram a disputar uma parcela do orçamento que antes sequer existia dessa forma.

O avanço das chamadas bets tornou-se suficientemente relevante para entrar no debate econômico e social sobre endividamento.

O Brasil ficou mais seguro?

A resposta depende de qual violência está sendo observada.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 registrou redução das mortes violentas intencionais no país e apontou o menor patamar da série histórica iniciada em 2012.

É um resultado relevante e não deve ser apagado por conveniência política.

Ao mesmo tempo, outros indicadores revelam um quadro muito menos confortável.

Violências contra mulheres, feminicídios, crimes contra crianças e adolescentes, golpes digitais e a presença do crime organizado continuam impondo desafios diferentes daqueles retratados apenas pelas estatísticas de homicídio.

O avanço de facções sobre territórios e atividades econômicas também transformou a discussão sobre segurança pública.

Por isso, afirmar simplesmente que “a violência caiu” ou que “o Brasil ficou mais violento” pode esconder mais do que explicar.

Algumas formas de violência recuaram. Outras avançaram ou ganharam novas características.

Essa complexidade ajuda a explicar por que segurança voltou a ocupar posição central nos programas apresentados para as eleições de 2026.

Corrupção: o assunto que nunca desapareceu

A política brasileira atravessou a última década prometendo que grandes operações, novas leis, mecanismos de transparência e instituições mais fortes produziriam um ambiente menos tolerante à corrupção.

Houve avanços institucionais e investigações importantes.

Mas novos casos continuaram surgindo.

Investigações envolvendo descontos indevidos em benefícios do INSS, operações da Polícia Federal e outros episódios de grande repercussão recolocaram suspeitas sobre relações entre dinheiro, influência e poder no debate nacional.

Cada um desses casos possui situação jurídica própria. Investigação não é condenação, suspeita não é prova e indiciamento não equivale a culpa definitivamente estabelecida.

Mas a repetição de grandes investigações levanta uma questão legítima para o país: o Brasil conseguiu reduzir estruturalmente os espaços para corrupção ou continua principalmente reagindo depois que os esquemas aparecem?

O programa eleitoral apresentado por Lula para 2026 promete dar continuidade ao Plano de Integridade e Combate à Corrupção 2025–2027 e fortalecer mecanismos de prevenção e responsabilização.

As propostas dos demais candidatos também precisam ser submetidas ao mesmo teste: o que pretendem fazer, quanto custa, quais instrumentos utilizarão e como será possível medir posteriormente se cumpriram.

Da picanha à caneta emagrecedora

Se a picanha se tornou um símbolo político em 2022, a reta final de 2026 produziu uma imagem inesperada: as chamadas canetas emagrecedoras.

Em 17 de setembro, Lula defendeu que medicamentos desse tipo sejam disponibilizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde, sob prescrição e critérios médicos.

A proposta apareceu justamente durante a campanha eleitoral.

O tema, entretanto, já vinha sendo discutido dentro da estrutura pública de saúde.

Em julho, a Anvisa registrou cinco novos medicamentos à base de semaglutida. O Ministério da Saúde havia solicitado prioridade na análise desses produtos com o objetivo declarado de aumentar concorrência, estimular produção e ampliar acesso.

Atualmente, medicamentos da classe GLP-1 ainda não são oferecidos pelo SUS. A incorporação da semaglutida está em análise e estudos estão sendo realizados para avaliar seu eventual uso na rede pública.

Portanto, existe uma diferença importante entre três coisas: registro sanitário, estudo de incorporação e promessa de fornecimento gratuito.

O fato de a proposta surgir a poucas semanas das urnas também torna legítimo discutir seu contexto eleitoral, sem que isso, por si só, determine a viabilidade médica ou econômica da medida.

Bolsa Família aumenta às vésperas da eleição

As canetas não foram o único anúncio de forte apelo popular na reta final da campanha.

O governo anunciou em setembro reajuste de aproximadamente 15% no piso do Bolsa Família, elevando o valor mínimo de R$ 600 para R$ 691.

A medida passou imediatamente a ser contestada pela oposição, que questionou seu momento e sua legalidade eleitoral.

Defensores do reajuste argumentam que ele recompõe perdas inflacionárias e possui previsão fiscal. Críticos questionam o custo permanente e a proximidade das eleições.

O debate remete inevitavelmente a 2022.

Naquele ano, o governo Jair Bolsonaro também ampliou benefícios sociais durante o período eleitoral, e medidas adotadas naquele contexto foram alvo de questionamentos jurídicos e políticos.

Quando governo e oposição trocam de posição, o critério jornalístico não pode mudar junto com eles.

A pergunta deve ser a mesma independentemente de quem ocupa o Planalto: a medida possui fundamento social e orçamentário? Respeita a legislação? É sustentável depois das urnas? E teria sido adotada nas mesmas condições fora de um ano eleitoral?

Uma nova temporada de promessas começou

O Brasil chega à eleição de 2026 com 12 candidaturas presidenciais registradas na disputa.

Os programas apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral mostram diferenças relevantes sobre economia, segurança pública, tamanho do Estado, políticas sociais, relação entre os Poderes e papel do investimento público.

Lula propõe continuidade da valorização real do salário mínimo, isenção de impostos para a cesta básica, novos investimentos públicos, criação de um Ministério da Segurança Pública e continuidade das políticas de integridade.

Flávio Bolsonaro apresenta outra direção econômica: redução da estrutura federal, corte de ministérios e despesas administrativas, novo teto de gastos e retomada de privatizações e concessões.

Outros candidatos apresentam propostas próprias que também precisam ser consideradas pelo eleitor.

São projetos diferentes para o Estado brasileiro. Nenhum deles deve ser avaliado apenas pelo slogan que cabe em um vídeo de poucos segundos.

Prometer é relativamente simples. Governar envolve Congresso, orçamento, limites fiscais, Judiciário, governos estaduais, municípios e circunstâncias econômicas que uma campanha nem sempre controla.

É justamente por isso que propostas precisam ser examinadas antes — e cobradas depois.

Promessa, resultado e realidade

Em 2022, a picanha funcionou como símbolo de um país em que o trabalhador voltaria a consumir melhor.

Quatro anos depois, o Brasil apresenta resultados que não cabem confortavelmente nem na propaganda do governo nem na narrativa de seus adversários.

Há mais emprego. Há crescimento da renda. A inflação perdeu força e determinados indicadores de violência melhoraram.

Também existem juros elevados, famílias endividadas, atividade econômica desacelerando, modalidades de violência que continuam crescendo, crime organizado, investigações de corrupção e uma sociedade ainda profundamente dividida sobre o caminho do país.

Agora, novas promessas chegam.

Algumas são continuidade de políticas existentes. Outras representam mudanças profundas. Algumas possuem estudos, orçamento e desenho institucional. Outras ainda precisarão demonstrar como sairão do palanque para a realidade.

É nessa diferença que a campanha eleitoral precisa ser observada.

Quanto pesa a memória do eleitor?

Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes das eleições de 2026.

O eleitor não chega às urnas apenas diante de promessas sobre o futuro. Ele chega carregando quatro anos de experiência sobre o presente.

Alguns brasileiros melhoraram de vida. Outros continuam pressionados. Para alguns, emprego e renda terão peso decisivo. Para outros, segurança, corrupção, impostos, valores, serviços públicos ou custo de vida serão determinantes.

Uma democracia não exige que todos façam a mesma leitura do país. Exige que tenham condições de distinguir propaganda de informação e promessa de resultado.

A picanha de ontem, a caneta emagrecedora de hoje ou qualquer outro símbolo que surgir amanhã são apenas a superfície dessa disputa.

Por baixo dela existem orçamento, inflação, emprego, dívida, violência, políticas públicas e decisões capazes de afetar milhões de pessoas muito depois que os palanques forem desmontados.

Em 4 de outubro, o brasileiro voltará às urnas.

Até lá, governo e oposição tentarão convencer o país sobre qual Brasil existe — e qual Brasil pode existir depois da eleição.

Ao eleitor cabe algo que nenhuma campanha deveria fazer em seu lugar: comparar o que foi dito, observar o que aconteceu e decidir o peso que cada resultado terá no voto.

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