MPF cobra respostas do Governo de Sergipe sobre combate ao racismo religioso

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Por olhonamídia
Notícias | Sergipe em Foco
setembro 28, 2026

Recomendação coloca três órgãos estaduais diante da obrigação de avaliar as manifestações de comunidades tradicionais e explicar publicamente as decisões sobre a regulamentação da legislação.

O Governo de Sergipe terá de prestar esclarecimentos ao Ministério Público Federal (MPF) sobre o tratamento dado às propostas apresentadas por representantes de religiões de matriz africana durante a discussão da regulamentação da Lei Estadual nº 9.404/2024.

A cobrança foi formalizada na Recomendação nº 6/2026, encaminhada em 22 de setembro à Secretaria de Estado da Assistência Social, Inclusão e Cidadania (Seasic), à Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e à Secretaria Especial de Governo (Segov).

O documento exige que os órgãos estaduais examinem as manifestações recebidas, indiquem quais sugestões foram consideradas e apresentem justificativas fundamentadas para eventuais rejeições.

O ponto central da intervenção é impedir que a participação das comunidades se limite ao cumprimento de uma formalidade administrativa, sem influência demonstrável na elaboração da política pública.

Lei do Abril Verde entra em nova etapa

A legislação estadual instituiu o mês Abril Verde e o Selo Combate ao Racismo Religioso e à Intolerância Religiosa, instrumentos voltados à conscientização e ao enfrentamento da discriminação motivada por crenças religiosas.

Embora a lei tenha sido aprovada em 2024, sua regulamentação envolve definições administrativas sobre a execução das medidas previstas. É justamente nessa etapa que representantes de povos de terreiro reivindicam participação efetiva.

A atuação do MPF está fundamentada na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que estabelece garantias de consulta livre, prévia e informada aos povos e comunidades tradicionais afetados por determinadas decisões do poder público.

Na avaliação do Ministério Público, ouvir essas comunidades não significa apenas receber documentos. É necessário examinar as contribuições e demonstrar como elas influenciaram a decisão administrativa.

Comunidades apresentaram propostas técnicas

O processo ganhou uma etapa importante em 13 de agosto, quando o MPF promoveu uma reunião ampliada entre representantes do Governo de Sergipe e lideranças religiosas.

Na ocasião, a Seasic apresentou informações sobre a minuta do decreto regulamentador. As comunidades receberam prazo de 30 dias para realizar discussões internas e encaminhar sugestões.

Entre as manifestações recebidas estão documentos de organizações religiosas, grupos jurídicos e pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

As propostas abordam questões relacionadas à participação comunitária, à composição do comitê gestor, à gestão democrática e ao aperfeiçoamento das garantias de enfrentamento ao racismo religioso.

Ao todo, oito documentos técnicos e manifestações foram encaminhados aos órgãos estaduais juntamente com a recomendação.

Estado terá de justificar suas decisões

A recomendação estabelece dois prazos, ambos contados a partir do recebimento oficial do documento.

Em 20 dias: os órgãos deverão informar se acatam ou não a recomendação, apresentando as providências administrativas adotadas.

Em 60 dias, caso haja acatamento: deverão concluir a análise dos pareceres, elaborar e publicar decisão fundamentada no processo administrativo estadual, dar publicidade às comunidades interessadas e comunicar o resultado ao MPF.

O Ministério Público também chama atenção para possíveis consequências jurídicas de procedimentos que desrespeitem as garantias de consulta previstas na legislação aplicável.

A recomendação não representa, por si só, uma decisão judicial nem comprova que o Estado tenha cometido uma irregularidade. Trata-se de uma medida extrajudicial de acompanhamento e cobrança de providências administrativas.

O que está em jogo para Sergipe?

A discussão ultrapassa a redação de um decreto. O resultado poderá estabelecer como os povos de terreiro participarão da implementação e do acompanhamento de uma política estadual diretamente relacionada à proteção de suas tradições e ao exercício da liberdade religiosa.

Também coloca em evidência a necessidade de transparência na relação entre governo e sociedade civil: abrir espaço para manifestações é uma etapa; demonstrar como elas foram examinadas é outra.

O próximo movimento caberá aos órgãos estaduais, que deverão informar ao MPF sua posição sobre a recomendação.

Até a publicação desta reportagem, não foi apresentada nesta apuração uma manifestação oficial posterior da Seasic, da PGE ou da Segov sobre o atendimento à medida.

Fonte documental: Ministério Público Federal em Sergipe (MPF/SE). Reportagem e contextualização: Olho na Mídia.

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