Há mortes que não encerram apenas uma vida. Interrompem uma história profissional, deixam uma redação órfã e obrigam uma sociedade inteira a encarar aquilo que aprendeu perigosamente a tratar como rotina.
Márcio Chaer, fundador e diretor-executivo do Consultor Jurídico (ConJur), morreu aos 71 anos neste sábado (3), em São Paulo, depois de passar mal ao perseguir criminosos envolvidos no roubo de um celular.
Para o jornalismo brasileiro, a notícia tem um peso particular. Chaer não era apenas mais um profissional de imprensa. Durante quase três décadas à frente do ConJur, ajudou a construir praticamente um território próprio dentro do jornalismo nacional: a cobertura especializada, permanente e aprofundada do Poder Judiciário.
E foi justamente um episódio da violência cotidiana — daqueles que se repetem nas grandes cidades até correrem o risco de virar apenas mais um número nas estatísticas — que antecedeu seus últimos minutos de vida.
Um celular, uma perseguição e uma tragédia
O caso aconteceu nas proximidades da Estação Armênia, na Avenida Pedro Vicente, em São Paulo. Imagens de câmeras de segurança registraram a movimentação dos criminosos e, posteriormente, a reação das pessoas que estavam no veículo.
Chaer deixou o carro e correu atrás de um dos envolvidos. As imagens mostram o jornalista atravessando a via e seguindo a perseguição.
Minutos depois, porém, seu ritmo diminuiu.
Ele passou mal e procurou apoio nas proximidades de um estabelecimento. Pessoas que estavam no local tentaram ajudá-lo e equipes de emergência foram acionadas, mas Márcio Chaer morreu ainda no local.
A Polícia Militar informou que o jornalista sofreu um mal súbito. Algumas informações iniciais apontaram para a possibilidade de infarto, mas, diante da ausência de confirmação conclusiva da causa médica nas informações oficiais disponíveis até a publicação desta matéria, o Olho na Mídia mantém a descrição mais cautelosa.
Não foi “só um celular”
É tentador resumir episódios assim dizendo que ninguém deveria reagir a um assalto. O conselho é correto e necessário: diante de um criminoso, preservar a vida deve ser sempre a prioridade.
Mas essa recomendação não pode transformar a vítima em responsável pela tragédia.
Chaer não criou a situação que o colocou naquela corrida. O crime criou.
Antes da perseguição houve uma abordagem criminosa. Antes do mal súbito houve a subtração de um bem. Antes da morte houve uma ruptura violenta da normalidade de quem simplesmente transitava pela cidade.
Esse encadeamento importa.
Quando o roubo de um telefone passa a ser tratado quase como uma inconveniência inevitável da vida urbana, perde-se a dimensão humana que existe por trás das estatísticas. Um celular roubado pode significar documentos, contas bancárias, fotografias, informações profissionais, contatos, memórias e, sobretudo, a sensação de que alguém invadiu violentamente o espaço pessoal de outra pessoa.
No caso de Márcio Chaer, a sequência terminou da pior maneira possível.
Um pioneiro do jornalismo jurídico
É impossível contar a história recente da cobertura do Judiciário brasileiro sem passar pelo trabalho de Márcio Chaer.
Antes de empreender, ele acumulou experiência em importantes redações brasileiras, trabalhando como repórter, editor e chefe de reportagem. Em 1997, quando o jornalismo digital brasileiro ainda dava seus primeiros passos, fundou o Consultor Jurídico.
A aposta mostrou-se visionária.
O ConJur transformou decisões judiciais, jurisprudência, funcionamento dos tribunais, advocacia, Ministério Público e grandes debates constitucionais em cobertura jornalística diária. O que durante muito tempo permanecia restrito aos corredores dos tribunais e aos círculos especializados ganhou uma janela permanente para o público.
Em 2007, Chaer avançou novamente com o Anuário da Justiça, projeto dedicado a registrar decisões, perfis e tendências das principais cortes brasileiras.
Mais do que acompanhar o Judiciário, Chaer ajudou a criar uma linguagem jornalística própria para explicá-lo.
Uma perda sentida no mundo jurídico
A dimensão de sua influência ficou evidente poucas horas depois da notícia de sua morte.
Tribunais, magistrados, advogados, integrantes do Ministério Público, jornalistas e instituições divulgaram manifestações de pesar.
A Ordem dos Advogados do Brasil destacou que Chaer ajudou a qualificar, durante décadas, o debate público sobre Justiça, advocacia e instituições.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, ressaltou que o jornalista profissionalizou a cobertura do Poder Judiciário e ajudou a mostrar à sociedade a importância das decisões e julgamentos da Justiça brasileira.
Também houve manifestações de integrantes e representantes das mais altas instituições do país, numa demonstração rara de reconhecimento a um jornalista cuja trajetória atravessou diferentes períodos políticos e momentos decisivos da República.
O homem vai. A obra fica.
Para quem trabalha com jornalismo, talvez exista uma dimensão ainda mais dolorosa nessa história.
Márcio Chaer passou décadas observando o poder, interpretando decisões, fazendo perguntas e construindo informação. Fundou um veículo quando apostar em jornalismo especializado na internet ainda parecia ousadia. Formou profissionais. Criou projetos. Construiu memória.
Aos 71 anos, continuava ligado ao ofício que ajudou a transformar.
E sua vida terminou depois de um acontecimento que jamais deveria ser considerado normal: um crime cometido em plena cidade, em plena luz do dia, contra pessoas que estavam dentro de um automóvel.
O debate sobre segurança pública continuará. Estatísticas serão divulgadas. Governos apresentarão números, especialistas discutirão políticas e autoridades prometerão respostas.
Mas, para uma família, para amigos e para uma redação, não existe estatística capaz de traduzir esta perda.
Existe uma cadeira vazia.
Existe uma equipe que amanhã continuará publicando no veículo que ele criou.
Existe uma geração de jornalistas e profissionais do Direito que continuará consultando uma obra que carrega sua marca.
E existe uma pergunta incômoda que uma sociedade não deveria abandonar: quantas tragédias ainda serão necessárias para que o crime cotidiano deixe de ser tratado como parte inevitável da paisagem urbana brasileira?
Márcio Chaer, 1955–2026.
Fundador do Consultor Jurídico. Pioneiro do jornalismo jurídico digital brasileiro. Uma trajetória construída entre redações, tribunais e a defesa permanente da informação.
O Olho na Mídia manifesta solidariedade aos filhos, familiares, amigos, colegas de profissão e a toda a equipe do ConJur.
Apuração e edição: Olho na Mídia