Eduardo Paes entrou na disputa pelo governo do Rio de Janeiro carregando o peso de sua experiência política e a expectativa de que sua popularidade na capital seria suficiente para conquistar o estado. Saiu das urnas diante de uma realidade muito diferente: o eleitorado fluminense deu a dianteira a Douglas Ruas, candidato do PL, e uma decisão da Justiça Eleitoral transformou essa vantagem em vitória no primeiro turno.
O resultado representa mais do que uma derrota eleitoral. É um golpe na estratégia de um político que construiu sua imagem em torno da capacidade de administrar, negociar com diferentes grupos e transformar visibilidade em capital político.
Para o Olho na Mídia, a questão que emerge das urnas é direta: Eduardo Paes superestimou sua capacidade de conquistar o Rio de Janeiro para além dos limites da capital?
A derrota que desmontou o favoritismo
Na apuração original de 4 de outubro, Douglas Ruas recebeu 4.271.199 votos, equivalentes a 49,27% dos votos válidos. Eduardo Paes terminou com 3.706.984 votos, ou 42,76%.
Inicialmente, os dois disputariam o segundo turno.
Entretanto, o TSE decidiu, por cinco votos a dois, anular os 274.411 votos atribuídos a Anthony Garotinho, cuja candidatura havia sido indeferida.
Com a retotalização realizada pelo TRE-RJ neste sábado, Ruas passou a representar 50,88% dos votos válidos, enquanto Paes ficou com 44,16%.
A mudança não decorreu de novos votos, mas da exclusão daqueles considerados juridicamente inválidos. O resultado apontou Ruas como vencedor sem necessidade de segundo turno, ainda sujeito às etapas formais de homologação.
O prefeito dos grandes eventos encontrou um estado diferente
Eduardo Paes fez da administração da cidade do Rio de Janeiro uma das principais vitrines de sua trajetória.
Eventos internacionais, grandes espetáculos, investimentos urbanos e a associação da cidade à indústria do entretenimento ajudaram a consolidar uma imagem de gestor de forte presença pública.
Mas existe uma diferença entre governar a capital e conquistar politicamente um estado marcado por profundas desigualdades regionais, problemas de segurança pública e interesses locais distintos.
A popularidade construída nos grandes palcos cariocas não se converte automaticamente em apoio eleitoral no interior e na região metropolitana.
O resultado revela justamente esse limite.
A política fluminense mostrou que visibilidade, experiência administrativa e capacidade de articulação não garantem, por si, a conquista do Palácio Guanabara.
A relação com Lula e a difícil identidade política de Paes
Outro elemento importante da derrota está nas alianças construídas por Eduardo Paes.
Embora filiado ao PSD, o político manteve aproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e contou com o apoio do campo governista.
Ao mesmo tempo, buscou dialogar com setores mais amplos do eleitorado, inclusive segmentos que não se identificam com o PT.
Essa estratégia de conciliação pode funcionar em determinadas circunstâncias. Em uma eleição polarizada, porém, também apresenta riscos: o candidato pode acabar pressionado a explicar qual projeto político efetivamente representa.
A derrota não prova que a aliança com Lula tenha sido sua causa determinante. Mas coloca em discussão se Paes conseguiu construir uma identidade estadual suficientemente forte para enfrentar a mobilização do eleitorado conservador.
Bolsonaro já havia transformado Paes em adversário
O vídeo que voltou a circular nas redes sociais recupera declarações duras de Jair Bolsonaro contra Eduardo Paes.
Em um dos trechos reproduzidos, o ex-presidente chama o então prefeito de “sem caráter”, em meio a acusações políticas e ataques pessoais.
A gravação também apresenta um comentarista comemorando a derrota de Paes e atribuindo o resultado à arrogância e ao excesso de confiança do político.
Essas manifestações expressam a posição de Bolsonaro e do autor do comentário. Não comprovam, isoladamente, as acusações feitas contra o ex-prefeito.
Ainda assim, ajudam a compreender o grau de antagonismo que se formou entre Paes e o bolsonarismo.
A eleição estadual acabou se transformando em mais um capítulo desse confronto, com resultado favorável ao candidato apoiado pelo PL.
Gastos públicos, espetáculos e a cobrança que permanece
Entre as críticas feitas a Eduardo Paes estão os gastos com grandes eventos e o modelo de promoção internacional da cidade.
No vídeo, o comentarista acusa o ex-prefeito de privilegiar espetáculos caros e relações políticas em detrimento de outras prioridades administrativas.
O debate sobre a utilização de recursos públicos é legítimo. Entretanto, afirmar que houve desperdício, favorecimento ou irregularidade exige examinar contratos, fontes de financiamento, contrapartidas econômicas e eventuais decisões dos órgãos de controle.
Grandes eventos podem movimentar turismo, comércio e serviços. A questão é saber se os benefícios justificam os custos e se as escolhas administrativas atenderam ao interesse público.
É nesse terreno que uma avaliação séria da gestão de Paes precisa acontecer: menos propaganda, mais resultados verificáveis.
A judicialização que não salvou o projeto de Paes
A reviravolta eleitoral também teve um componente jurídico decisivo.
A coligação de Eduardo Paes contestou a decisão que anulou os votos de Garotinho e buscou preservar a realização do segundo turno.
O ex-prefeito argumentou que a exclusão daqueles votos contrariava a expectativa de uma nova votação entre os dois candidatos mais bem colocados.
A Justiça Eleitoral, contudo, adotou o entendimento de que os votos de um candidato com registro indeferido não poderiam integrar o cálculo definitivo dos votos válidos.
Paes reconheceu a derrota e afirmou que respeitaria a decisão judicial, embora discordasse de seus efeitos.
O episódio deixa uma lição política: não basta liderar pesquisas ou construir alianças poderosas. O resultado depende dos votos efetivamente recebidos e das regras eleitorais aplicáveis a todos os candidatos.
A derrota de Paes e o recado das urnas
A derrota de Eduardo Paes não significa o encerramento de sua carreira política. Sua trajetória, sua influência no PSD e sua presença no debate nacional continuam sendo ativos relevantes.
Mas o resultado impõe uma revisão de estratégia.
O político que apostou na experiência administrativa e no reconhecimento de seu nome não conseguiu superar um adversário associado à renovação do comando estadual e à força eleitoral do bolsonarismo.
A leitura de que Paes teria sido derrotado exclusivamente por arrogância pertence ao campo da interpretação política. O que os números demonstram é que seu favoritismo não resistiu à votação.
O verdadeiro Eduardo Paes, agora, será colocado à prova longe dos palanques vitoriosos, das festas populares e das grandes campanhas publicitárias.
Será necessário demonstrar capacidade de reconhecer erros, reconstruir alianças e compreender por que uma parcela expressiva do eleitorado preferiu entregar o governo estadual a outro projeto.
A derrota não apaga suas realizações, mas derruba a ideia de que sua popularidade na capital bastaria para conquistar todo o Rio de Janeiro.
No fim, as urnas deram a resposta que nenhuma estratégia de marketing poderia substituir: Eduardo Paes não era invencível. E o Rio de Janeiro mostrou que não tem dono.