Master de novo no radar: operação expõe teia bilionária ligada ao PCC

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Crédito Oculto investiga engenharia financeira usada, segundo Receita e Gaeco, para esconder patrimônio e viabilizar a compra de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país; delator do caso Master aparece entre os alvos e leva nova conexão ao centro da apuração.


Por olhonamídia

Notícias | Segurança

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24 de setembro de 2026

Há uma pergunta incômoda atravessando Brasília e o mercado financeiro depois da nova ofensiva contra a estrutura de lavagem de dinheiro investigada na Operação Carbono Oculto. Ela foi feita ao vivo pela CNN nesta quinta-feira (24), quando a emissora noticiava que um empresário ligado ao caso Banco Master estava entre os alvos das buscas: “em que esquema criminoso nesse país não tem a digital do Banco Master?”

A frase é provocativa e não representa uma conclusão das autoridades. Mas o fato de ela ter sido formulada em rede nacional ajuda a dimensionar uma questão que se tornou difícil ignorar: personagens ligados ao escândalo Master continuam surgindo em investigações de enorme repercussão, e desta vez o caminho desemboca numa engrenagem financeira que, segundo a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo, foi utilizada para ocultar patrimônio e afastar dos verdadeiros beneficiários o dinheiro empregado na aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do Brasil.

A operação deflagrada nesta quinta-feira chama-se Crédito Oculto e é um novo desdobramento da Carbono Oculto, investigação que desde o ano passado vem desmontando a presença do crime organizado na cadeia de combustíveis. Se as primeiras etapas revelaram postos, distribuidoras, usinas, fintechs e movimentações atribuídas a integrantes do PCC, a nova fase avança justamente sobre uma área mais sofisticada: o mercado financeiro.

E o tamanho da estrutura impressiona. Uma empresa financeira empregada nas operações investigadas movimentou aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025, segundo a Receita Federal. O órgão afirma que esse volume, analisado em conjunto com outras evidências, reforça os indícios de utilização de estruturas financeiras e de investimentos para ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e lavagem de dinheiro.

Isso não significa que R$ 11,6 bilhões sejam, integralmente, dinheiro do PCC nem que esse valor possa ser atribuído ao Banco Master, ao Banco Genial ou à Entre Investimentos. A Receita não fez essa afirmação. O que a investigação procura reconstruir é uma arquitetura muito mais complexa, na qual dinheiro atravessava empresas, fintechs, fundos de investimento, uma usina, operações bancárias, holdings e empresas-veículo até chegar a ativos que, formalmente, já apareciam distantes de seus beneficiários econômicos.

É justamente nesse labirinto que surge um personagem conhecido de outra investigação: Antonio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos e delator do caso Banco Master.


Do caso Master à Carbono Oculto

Freixo aparece nas investigações sobre o Master como operador ligado a Daniel Vorcaro. Agora, seu nome também está entre os alvos da Crédito Oculto, e o Grupo Entre aparece em uma etapa concreta do fluxo financeiro investigado pelo Ministério Público paulista.

Segundo a apuração, a Entre Investimentos teria transferido R$ 20 milhões para a Usina Itajobi, empresa que ocupa posição central na engenharia rastreada pelas autoridades. O dinheiro teria sido remetido para uma conta da usina em uma fintech e, posteriormente, integrado ao circuito financeiro examinado pelos investigadores.

É essa sobreposição que torna o episódio tão relevante. Não porque ela prove que o Banco Master tenha participado do esquema atribuído ao PCC — isso não está demonstrado pelos elementos públicos da operação —, mas porque um operador já ligado a Vorcaro aparece agora em outra investigação de grande alcance, desta vez relacionada à estrutura financeira usada por empresários que o Ministério Público associa ao crime organizado no setor de combustíveis.

A história começa muito antes de o dinheiro chegar a uma distribuidora. A Receita afirma que uma primeira estrutura foi montada para esconder os verdadeiros controladores de uma usina sucroalcooleira no interior de São Paulo. Embora a propriedade formal estivesse espalhada entre fundos e empresas aparentemente independentes, os investigadores dizem ter reunido elementos indicando que o desenho preservava o controle econômico do negócio sem revelar seus beneficiários finais.

Uma operação de aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios da usina chamou a atenção. Segundo a Receita, parte relevante dos recursos empregados na aquisição das cotas teria saído de fundos controlados pelo próprio grupo investigado, produzindo um fluxo circular que dava aparência de legitimidade à transação enquanto dificultava a identificação de quem realmente estava por trás do patrimônio.

A usina, depois de protegida por sucessivas camadas societárias e financeiras, teria assumido outra função: servir de peça para a compra da distribuidora Terrana.


O dinheiro que desaparecia entre as camadas

É nessa etapa que a investigação descreve uma operação digna de atenção não apenas policial, mas também do sistema financeiro.

Segundo a Receita, R$ 100 milhões enviados pela organização criminosa chegaram às contas da usina depois de passar, em poucos minutos, por contas de diferentes empresas dentro de fintechs. Eram utilizadas as chamadas contas-bolsão, que dificultavam a identificação externa de quem efetivamente originava ou recebia determinado valor.

Depois de chegar à usina, o dinheiro foi aportado em um fundo de investimento. A partir daí, entrou em cena um Certificado de Depósito Bancário Vinculado, o CDBV. O fundo aplicou recursos em um certificado emitido por um banco tradicional e, na sequência, segundo a investigação, o banco realizou operações de crédito com duas empresas utilizadas na aquisição da distribuidora.

Para os investigadores, o desenho permitia que recursos que já estavam dentro do circuito retornassem com a aparência formal de empréstimos bancários. O resultado era uma sucessão de camadas entre o dinheiro original e o ativo comprado: fintech, usina, fundo, banco, holdings e, finalmente, a distribuidora.

Quanto maior o caminho, mais difícil se tornava enxergar quem havia colocado o dinheiro no início e quem controlaria o patrimônio no final. A própria Receita descreve uma combinação de mecanismos complementares: fintechs para circulação e fragmentação dos valores, empresa sucroalcooleira para incorporá-los à atividade econômica formal, fundos assumindo a posição de financiadores, holdings realizando aquisições e empresas-veículo criando novas distâncias entre a origem dos recursos e seus beneficiários.

A investigação sustenta que essa engrenagem foi usada para viabilizar a aquisição da Terrana, uma das grandes distribuidoras do setor.


A investigação tenta reconstruir um caminho no qual o dinheiro atravessava fintechs, uma usina, fundos, operações bancárias e holdings antes de chegar aos ativos adquiridos — sucessivas camadas que, segundo as autoridades, dificultavam a identificação dos beneficiários finais.


O mercado financeiro entra no coração da investigação

É aqui que a Carbono Oculto muda de dimensão. A investigação já não olha apenas para postos suspeitos, combustível adulterado, empresas de fachada ou operadores conhecidos do submundo criminal. Ela passa a examinar instrumentos legítimos e sofisticados do mercado financeiro que, segundo as autoridades, teriam sido utilizados para dar aparência regular ao patrimônio e ao dinheiro investigado.

Isso não torna fundos, CDBs, fintechs ou operações de crédito suspeitos por natureza. São ferramentas comuns da economia formal. O que Receita e Gaeco investigam é se, nesse caso específico, essas estruturas foram deliberadamente organizadas para ocultar a origem dos recursos e os verdadeiros beneficiários dos negócios.

Entre os alvos está também Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor e ex-sócio do Banco Genial.

O Genial afirma que Tupinambá não integra a diretoria nem o quadro societário desde maio deste ano. O banco diz ainda que forneceu ao Gaeco informações sobre as operações envolvendo o Fundo Radford e as holdings Berna e Branson, realizou as comunicações cabíveis ao Coaf e, após tomar conhecimento dos fatos, adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo revisão de operações de crédito, afastamento do então diretor dos processos decisórios e posterior destituição.

A instituição também afirma ter renunciado à administração do Fundo Radford depois da deflagração da Carbono Oculto e diz permanecer à disposição das autoridades. A defesa de Antonio Carlos Freixo Junior informou à CNN que ele não se manifestaria sobre a operação.

Esses contrapontos são fundamentais porque busca e apreensão, relação comercial ou presença em uma investigação não equivalem a condenação. Mas também não eliminam a dimensão do que está sendo investigado.


E onde entra o Master?

É precisamente aqui que a pergunta lançada durante a transmissão da CNN precisa ser tratada com rigor.

O Banco Master não pode ser colocado automaticamente dentro da estrutura criminosa investigada na Crédito Oculto apenas porque Freixo aparece nos dois casos. O elo público identificado até agora é outro: o mesmo empresário que se tornou personagem relevante da investigação do Master aparece como alvo da Carbono Oculto e tem uma empresa apontada em movimentação financeira examinada nesta nova fase.

Freixo, segundo informações tornadas públicas no âmbito das investigações, firmou colaboração premiada no caso Master. Sua relação com Daniel Vorcaro também já havia aparecido na apuração sobre recursos destinados ao projeto cinematográfico Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Agora, seu nome reaparece em uma frente que investiga algo diferente e muito mais amplo: a infraestrutura financeira utilizada, segundo o Ministério Público, para ocultar patrimônio de empresários associados ao crime organizado no setor de combustíveis.

Isso não transforma investigações distintas em um único esquema. Mas cria uma interseção que precisa ser apurada até o fim.

Porque a pergunta jornalisticamente relevante não é simplesmente se “há a digital do Master” em todo escândalo. Essa formulação pode produzir uma manchete poderosa, mas antecipa uma conclusão que os documentos disponíveis ainda não permitem.


A pergunta realmente explosiva é outra: por que personagens e estruturas ligados ao caso Master continuam reaparecendo em investigações que alcançam diferentes áreas do poder econômico brasileiro — e qual é a extensão real dessas conexões?

É isso que precisa ser respondido com documentos, rastreamento financeiro e responsabilização individual — não com associação automática.


Uma lavanderia muito maior que um posto de combustível

A nova fase também ajuda a desmontar uma imagem antiga do crime organizado brasileiro. O dinheiro atribuído às facções já não circula apenas em espécie, em negócios clandestinos ou em empresas rudimentares. As investigações da Carbono Oculto descrevem uma organização capaz de penetrar atividades formais, movimentar grandes volumes, controlar empresas e utilizar estruturas financeiras sofisticadas.

A Receita Federal afirma ter identificado múltiplas estruturas suspeitas de lavagem de capitais e operadores do mercado financeiro que, segundo a investigação, teriam prestado serviços dessa natureza a diferentes grupos criminosos.

É uma mudança importante de perspectiva. O posto de combustível que aparece na esquina pode ser apenas a ponta visível. Atrás dele podem existir distribuidoras, usinas, fundos, fintechs, imóveis, empresas patrimoniais, holdings e operações bancárias que tornam o dinheiro progressivamente mais difícil de seguir.

É por isso que os R$ 11,6 bilhões chamam tanta atenção. Não porque toda essa quantia tenha sido declarada criminosa, mas porque revela a escala da estrutura financeira que agora está sob investigação. E é também por isso que a presença de personagens já conhecidos de outras grandes apurações merece escrutínio.

A Crédito Oculto cumpriu mandados em sete estados nesta quinta-feira e recolheu novos materiais que ainda serão analisados. A investigação tenta chegar aos beneficiários finais dos ativos, estabelecer quem sabia da origem dos recursos, identificar quem estruturou as operações e individualizar responsabilidades.

Até que esse trabalho seja concluído, existe uma fronteira que o jornalismo responsável não pode atravessar: conexão não é culpa; investigação não é condenação; coincidência de personagens não prova a existência de um único esquema.

Mas existe outra fronteira que também não pode ser ignorada. Quando uma investigação sobre crime organizado chega aos instrumentos mais sofisticados do mercado financeiro e encontra no caminho personagens que já aparecem em outros escândalos nacionais, a pergunta deixa de ser apenas onde o dinheiro passou.

Passa a ser quem construiu os caminhos para que ele pudesse passar — e quem, no final, realmente se beneficiou deles.

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