Quando a China decidiu endurecer as regras para celebridades, programas de entretenimento e a chamada cultura de fãs, a reação internacional concentrou-se em uma das determinações mais controversas: a orientação para que emissoras rejeitassem padrões estéticos considerados inadequados pelas autoridades, incluindo o que o documento oficial classificou, em linguagem depreciativa, como homens excessivamente afeminados.
A medida, anunciada em setembro de 2021 pela Administração Nacional de Rádio e Televisão da China, não foi um episódio isolado. Ela integrou uma ofensiva regulatória muito mais ampla sobre televisão, plataformas digitais, celebridades, programas de formação de ídolos e comunidades de fãs.
O episódio continua relevante porque expõe uma disputa que se tornou ainda maior na era dos algoritmos: quem está formando as referências culturais da próxima geração?
No documento de 2021, o órgão regulador chinês determinou o combate ao que classificou como cultura nociva de fãs, rejeitou programas de formação de ídolos e orientou emissoras e plataformas a controlar com maior rigor artistas, convidados, estilos de apresentação, roupas e maquiagem.
A ofensiva fazia parte de uma política mais ampla. Regras chinesas para programas destinados a menores já estabeleciam preocupação explícita com comercialização excessiva, exposição de riqueza, transformação de crianças em celebridades e entretenimento considerado inadequado ao desenvolvimento dos jovens.
O objetivo declarado pelas autoridades chinesas não era simplesmente mudar a aparência de quem aparecia na televisão. Pequim tratava o entretenimento como parte de uma política de formação cultural e social, associada à promoção de valores definidos pelo Estado.
É exatamente aí que começa a controvérsia.
Uma coisa é discutir os efeitos da cultura digital sobre crianças e adolescentes. Outra é entregar ao Estado o poder de estabelecer quais aparências, comportamentos ou expressões culturais são considerados aceitáveis.
O modelo chinês coloca essas duas questões dentro da mesma política — e é justamente isso que torna o caso tão controverso.
De um lado, existe uma discussão legítima sobre a influência de celebridades, redes sociais, plataformas digitais e comunidades de fãs sobre jovens. Do outro, surge uma questão igualmente fundamental sobre liberdade individual, diversidade cultural e os limites da interferência governamental na vida privada e na expressão artística.
Não é necessário escolher entre ignorar os efeitos das redes sociais e aceitar que governos ditem padrões culturais. Existe um enorme espaço entre esses extremos.
O Brasil não possui o mesmo sistema político nem o modelo de controle cultural adotado pela China. A comparação, portanto, precisa respeitar essa diferença fundamental.
Mas a pergunta provocada pelo caso chinês atravessa fronteiras.
Televisão, TikTok, Instagram, YouTube, serviços de streaming, games e outras plataformas competem diariamente pela atenção das novas gerações. Nesse ambiente, fama, consumo, aparência, riqueza, desempenho, conhecimento e reconhecimento social são apresentados continuamente como referências de sucesso.
E boa parte dessa seleção já não depende apenas de editores, produtores ou famílias. Ela passa também por sistemas de recomendação capazes de decidir, em escala gigantesca, quais vídeos, personagens e comportamentos receberão mais exposição.
Isso transforma a discussão.
A questão deixa de ser apenas “o que os jovens querem assistir?” e passa a incluir outra: quem está escolhendo aquilo que será colocado repetidamente diante deles?
O Brasil pode discutir formação cultural sem importar mecanismos de censura. Ciência, esporte, leitura, tecnologia, empreendedorismo, educação financeira, formação profissional, arte e cultura também podem disputar espaço no imaginário das novas gerações.
A diferença está no método.
Em vez de estabelecer por decreto quais personalidades ou estilos são aceitáveis, políticas públicas, escolas, famílias, empresas de mídia e plataformas podem ampliar o acesso a referências capazes de mostrar diferentes caminhos de realização pessoal e profissional.
Essa discussão ganha dimensão ainda maior quando inteligência artificial e algoritmos passam a participar da seleção do conteúdo consumido por milhões de pessoas.
A China escolheu responder a parte desse problema com forte intervenção estatal. Democracias enfrentam o desafio por outro caminho: preservar liberdade e pluralidade enquanto discutem proteção de menores, responsabilidade das plataformas e educação para um ambiente digital cada vez mais poderoso.
No fim, a controvérsia iniciada nas telas chinesas conduz a uma pergunta que interessa muito além de Pequim.
Se aquilo que uma geração vê todos os dias ajuda a construir aquilo que ela deseja ser amanhã, quem está escolhendo as referências que aparecem diante dela hoje?