Xuxa Meneghel não precisa mais provar que sabe chamar atenção. Décadas depois de transformar uma nave em um dos maiores símbolos da televisão brasileira, basta reaparecer diante das câmeras para que memória, nostalgia, fãs e críticos voltem a ocupar o mesmo espaço.
Em 2026, isso ficou ainda mais evidente.
Depois de um período em que sua presença na Globo aparecia de maneira pontual, Xuxa voltou a ocupar um dos palcos mais importantes da emissora. Em agosto, entrou no Domingão com Huck com músicas que atravessaram gerações, reviveu a nave de seus antigos programas e recebeu uma homenagem que a levou às lágrimas.
Não era mais apenas rumor de bastidor.
Xuxa estava novamente diante do público da Globo.
E justamente quando a televisão recupera a força de uma de suas maiores personagens, outra Xuxa também precisa entrar nessa conversa: a mulher que, fora do entretenimento, decidiu usar a própria voz para falar de política.
Durante décadas, milhões de brasileiros conheceram Xuxa cantando sobre amor, infância, sonhos e amizade.
As crianças cresceram.
Xuxa também.
E a relação entre celebridades e público mudou completamente.
Hoje, artistas não aparecem apenas na televisão. Eles comentam eleições, governos, comportamento, direitos, religião e praticamente qualquer tema capaz de incendiar uma rede social.
Xuxa entrou nesse território de maneira explícita.
Na eleição presidencial de 2022, declarou publicamente voto em Luiz Inácio Lula da Silva. Em vídeo divulgado nas redes sociais, apareceu vestida de vermelho, fez referência ao candidato e defendeu que a eleição fosse decidida no primeiro turno.
Também fez críticas públicas a Jair Bolsonaro.
Quatro anos depois, o assunto continua acompanhando sua imagem. Em julho de 2026, ao responder críticas nas redes sociais, Xuxa afirmou que não se considera de esquerda, embora tenha reiterado sua oposição a Bolsonaro.
É uma distinção importante.
Declarar voto em um candidato não transforma automaticamente alguém em integrante de um partido ou de uma corrente ideológica. Mas também não apaga o impacto público de uma celebridade quando ela decide entrar no debate político.
Pode.
Artista não perde direitos políticos porque ficou famoso. Xuxa, como qualquer cidadão brasileiro, pode apoiar candidatos, criticar políticos, defender causas e manifestar suas convicções.
A pergunta interessante é outra.
O que acontece quando essa opinião parte de alguém cuja imagem foi construída durante décadas diante de milhões de brasileiros?
Existe uma diferença evidente entre a opinião publicada por um cidadão para algumas dezenas de conhecidos e a manifestação de uma personalidade com enorme reconhecimento nacional.
Isso não torna a opinião da celebridade automaticamente certa.
Também não a torna automaticamente errada.
Torna-a poderosa.
E poder de comunicação merece escrutínio.
O problema aparece quando fama passa a ser confundida com autoridade sobre assuntos nos quais o artista não necessariamente possui conhecimento especializado. Isso vale para qualquer lado político e para qualquer celebridade.
Ter milhões de seguidores não transforma ninguém, por si só, em especialista em economia, segurança pública, saúde, educação ou instituições.
Do mesmo modo, discordar politicamente de um artista não apaga seu talento ou sua importância cultural.
É justamente aí que o público precisa separar duas coisas que as redes sociais insistem em misturar: admiração e concordância.
Seria fácil transformar essa discussão em um julgamento exclusivo sobre a apresentadora.
Seria também superficial.
Celebridades de diferentes posições políticas descobriram que suas redes sociais podem funcionar como enormes palanques digitais. Cantores, atores, jogadores, influenciadores e apresentadores passaram a disputar narrativas políticas diante de audiências que muitas vezes são maiores do que as de veículos tradicionais de comunicação.
Esse fenômeno exige atenção especialmente quando opiniões, slogans e conteúdos emocionais chegam ao público sem contexto suficiente para distinguir informação, propaganda, interpretação e fato.
E aqui existe uma responsabilidade compartilhada.
De quem fala.
De quem publica.
De quem compartilha.
E também de quem recebe.
Uma democracia saudável não depende de celebridades silenciosas. Depende de cidadãos capazes de ouvir uma celebridade — ou um político, influenciador, jornalista e até este próprio portal — e ainda assim verificar informações antes de formar uma opinião.
É justamente essa mistura de passado e presente que torna sua reaproximação com a Globo interessante.
A mulher que reapareceu no Domingão em agosto de 2026 não é simplesmente a apresentadora que desembarcava de uma nave diante de uma plateia infantil.
É uma figura pública de 63 anos que atravessou diferentes emissoras, gerações, transformações culturais, controvérsias e disputas políticas sem perder uma característica essencial para o entretenimento: a capacidade de provocar reação.
Para uma parte do público, continua sendo a Rainha dos Baixinhos.
Para outra, determinadas posições políticas interferem na maneira como sua imagem é percebida.
E há quem consiga separar perfeitamente as duas coisas.
A Globo conhece o valor dessa memória afetiva. A apresentação no Domingão, dentro da divulgação da turnê O Último Voo da Nave, mostrou que esse patrimônio cultural ainda produz televisão.
Isso, contudo, não significa automaticamente um novo programa fixo ou um contrato permanente. Uma participação televisiva é fato; qualquer passo além disso exige anúncio ou confirmação.
Mas uma coisa já está clara.
Xuxa voltou a ocupar espaço importante na conversa.
E talvez seja justamente por isso que discutir sua influência faça mais sentido agora.
Porque o maior patrimônio de uma celebridade não é apenas aquilo que ela consegue vender.
É aquilo que consegue fazer milhões de pessoas ouvir.
E quanto maior essa voz, maior deveria ser a disposição do público para fazer algo extremamente simples antes de concordar — ou discordar:
informar-se.