Agro bate recorde, mas dependência externa expõe vulnerabilidade brasileira

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Brasil exportou US$ 169,2 bilhões em produtos do agro em 2025, mas dependência de fertilizantes importados revela um ponto sensível por trás da força conquistada no comércio mundial.

Por olhonamídia
Agro Brasil | Mercado Agro
27 de maio de 2026

O Brasil chega ao mercado internacional do agro carregando dois números que ajudam a revelar uma contradição estratégica. De um lado, o país encerrou 2025 com US$ 169,2 bilhões em exportações do agronegócio, o maior valor da série histórica. Do outro, mais de 80% dos fertilizantes utilizados na produção nacional ainda vêm do exterior.

É uma combinação que mostra força e vulnerabilidade ao mesmo tempo.

O agro respondeu por 48,5% de tudo o que o Brasil exportou em 2025 e terminou o ano com superávit comercial de aproximadamente US$ 149,1 bilhões. A soja continuou na dianteira, com US$ 43,5 bilhões em receitas e volume recorde de 108,2 milhões de toneladas embarcadas.

Os números confirmam a dimensão alcançada pelo país como fornecedor mundial de alimentos. Mas também tornam mais relevante uma pergunta que ultrapassa a porteira: quanto dessa potência depende de insumos, mercados e decisões tomadas fora do Brasil?

O Brasil construiu uma potência exportadora no campo, mas parte essencial dessa máquina ainda depende de insumos produzidos milhares de quilômetros longe das lavouras brasileiras.

A força de US$ 169 bilhões

O desempenho de 2025 foi sustentado não apenas pelos preços, mas pelo volume embarcado. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, as vendas externas do agro cresceram 3% em valor e 3,6% em volume na comparação com 2024.

A China permaneceu como principal destino, adquirindo US$ 55,3 bilhões em produtos agropecuários brasileiros. A União Europeia veio em seguida, com US$ 25,2 bilhões, enquanto os Estados Unidos responderam por US$ 11,4 bilhões.

A concentração ajuda a dimensionar a importância das relações comerciais para o campo. Quando mercados desse tamanho alteram tarifas, requisitos sanitários, ambientais ou comerciais, a discussão deixa rapidamente as mesas diplomáticas e alcança produtores, tradings, frigoríficos, cooperativas e exportadores.

O desafio brasileiro, portanto, não está apenas em produzir. Está também em preservar mercados e ampliar destinos para reduzir exposição excessiva a poucos compradores.

O ponto fraco está antes da colheita

Se a dependência dos compradores aparece na saída da produção, outra vulnerabilidade surge antes mesmo do plantio. O próprio Ministério da Agricultura reconhece que mais de 80% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados.

Soja, milho e cana-de-açúcar respondem juntos por mais de 73% do consumo desses insumos no país. Isso significa que culturas decisivas para a pauta exportadora brasileira estão diretamente expostas ao comportamento de uma cadeia internacional de fornecimento.

Guerras, sanções econômicas, problemas logísticos, oscilações cambiais ou interrupções comerciais podem alterar preços e disponibilidade. Quando isso acontece, a pressão externa entra pela planilha de custos e chega à lavoura.

Essa dependência é suficientemente estratégica para ter levado o Brasil a estabelecer o Plano Nacional de Fertilizantes, com horizonte até 2050 e objetivo de ampliar a produção doméstica e reduzir a exposição às importações.

Exportar alimentos em escala mundial enquanto se depende do exterior para obter grande parte dos fertilizantes cria uma vulnerabilidade que não aparece no volume da safra, mas pode determinar seu custo.

As novas exigências dos compradores

Existe ainda outra transformação em curso. Grandes mercados consumidores passaram a ampliar requisitos relacionados a rastreabilidade, origem da produção, sustentabilidade e cumprimento de normas sanitárias e ambientais.

Para o produtor brasileiro, essas exigências podem representar custos de adaptação e necessidade de novos mecanismos de controle. Para os países compradores, são apresentadas como instrumentos destinados a garantir padrões ambientais, sanitários e de origem dos produtos.

É importante separar esse movimento de uma acusação genérica de protecionismo. Nem toda exigência internacional constitui barreira comercial. Regras sanitárias e ambientais também podem proteger consumidores, ecossistemas e a própria reputação dos produtos brasileiros.

O ponto econômico está em outro lugar: quanto maior a exigência para acessar determinado mercado, maior se torna a necessidade de rastreabilidade, tecnologia, documentação e capacidade de adaptação ao longo da cadeia.

Soberania passa pela diversificação

Os próprios resultados recentes mostram uma saída possível. Em 2025, o Brasil ampliou mercados e diversificou destinos para diferentes produtos agropecuários, reduzindo parte da exposição às turbulências internacionais.

Essa estratégia precisa caminhar ao lado de outra: aumentar a capacidade doméstica de produzir insumos considerados estratégicos.

O tamanho alcançado pelo agro brasileiro transformou a segurança de abastecimento em tema econômico nacional. Fertilizantes, logística, energia, tecnologia, crédito, defesa sanitária e relações comerciais passaram a integrar a mesma engrenagem.

O Brasil já demonstrou que consegue produzir e exportar em escala mundial. A próxima disputa é mais complexa: preservar essa força reduzindo vulnerabilidades que começam fora da fazenda, mas podem terminar diretamente no custo de cada safra.

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