O Brasil chega ao mercado internacional do agro carregando dois números que ajudam a revelar uma contradição estratégica. De um lado, o país encerrou 2025 com US$ 169,2 bilhões em exportações do agronegócio, o maior valor da série histórica. Do outro, mais de 80% dos fertilizantes utilizados na produção nacional ainda vêm do exterior.
É uma combinação que mostra força e vulnerabilidade ao mesmo tempo.
O agro respondeu por 48,5% de tudo o que o Brasil exportou em 2025 e terminou o ano com superávit comercial de aproximadamente US$ 149,1 bilhões. A soja continuou na dianteira, com US$ 43,5 bilhões em receitas e volume recorde de 108,2 milhões de toneladas embarcadas.
Os números confirmam a dimensão alcançada pelo país como fornecedor mundial de alimentos. Mas também tornam mais relevante uma pergunta que ultrapassa a porteira: quanto dessa potência depende de insumos, mercados e decisões tomadas fora do Brasil?
O desempenho de 2025 foi sustentado não apenas pelos preços, mas pelo volume embarcado. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, as vendas externas do agro cresceram 3% em valor e 3,6% em volume na comparação com 2024.
A China permaneceu como principal destino, adquirindo US$ 55,3 bilhões em produtos agropecuários brasileiros. A União Europeia veio em seguida, com US$ 25,2 bilhões, enquanto os Estados Unidos responderam por US$ 11,4 bilhões.
A concentração ajuda a dimensionar a importância das relações comerciais para o campo. Quando mercados desse tamanho alteram tarifas, requisitos sanitários, ambientais ou comerciais, a discussão deixa rapidamente as mesas diplomáticas e alcança produtores, tradings, frigoríficos, cooperativas e exportadores.
O desafio brasileiro, portanto, não está apenas em produzir. Está também em preservar mercados e ampliar destinos para reduzir exposição excessiva a poucos compradores.
Se a dependência dos compradores aparece na saída da produção, outra vulnerabilidade surge antes mesmo do plantio. O próprio Ministério da Agricultura reconhece que mais de 80% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados.
Soja, milho e cana-de-açúcar respondem juntos por mais de 73% do consumo desses insumos no país. Isso significa que culturas decisivas para a pauta exportadora brasileira estão diretamente expostas ao comportamento de uma cadeia internacional de fornecimento.
Guerras, sanções econômicas, problemas logísticos, oscilações cambiais ou interrupções comerciais podem alterar preços e disponibilidade. Quando isso acontece, a pressão externa entra pela planilha de custos e chega à lavoura.
Essa dependência é suficientemente estratégica para ter levado o Brasil a estabelecer o Plano Nacional de Fertilizantes, com horizonte até 2050 e objetivo de ampliar a produção doméstica e reduzir a exposição às importações.
Existe ainda outra transformação em curso. Grandes mercados consumidores passaram a ampliar requisitos relacionados a rastreabilidade, origem da produção, sustentabilidade e cumprimento de normas sanitárias e ambientais.
Para o produtor brasileiro, essas exigências podem representar custos de adaptação e necessidade de novos mecanismos de controle. Para os países compradores, são apresentadas como instrumentos destinados a garantir padrões ambientais, sanitários e de origem dos produtos.
É importante separar esse movimento de uma acusação genérica de protecionismo. Nem toda exigência internacional constitui barreira comercial. Regras sanitárias e ambientais também podem proteger consumidores, ecossistemas e a própria reputação dos produtos brasileiros.
O ponto econômico está em outro lugar: quanto maior a exigência para acessar determinado mercado, maior se torna a necessidade de rastreabilidade, tecnologia, documentação e capacidade de adaptação ao longo da cadeia.
Os próprios resultados recentes mostram uma saída possível. Em 2025, o Brasil ampliou mercados e diversificou destinos para diferentes produtos agropecuários, reduzindo parte da exposição às turbulências internacionais.
Essa estratégia precisa caminhar ao lado de outra: aumentar a capacidade doméstica de produzir insumos considerados estratégicos.
O tamanho alcançado pelo agro brasileiro transformou a segurança de abastecimento em tema econômico nacional. Fertilizantes, logística, energia, tecnologia, crédito, defesa sanitária e relações comerciais passaram a integrar a mesma engrenagem.
O Brasil já demonstrou que consegue produzir e exportar em escala mundial. A próxima disputa é mais complexa: preservar essa força reduzindo vulnerabilidades que começam fora da fazenda, mas podem terminar diretamente no custo de cada safra.